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21/01/2023

Lido

“Fascismo, nunca mais!” - O alarme contra os “populismos” e a pretensão de os reconduzir a velhas formas de autoritarismo ou totalitarismo, parece ignorar as diferentes circunstâncias, doutrinas e práticas de então e de hoje, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.



Com o aparecimento no mundo euroamericano de movimentos populares com características antiglobalistas e identitárias – movimentos que encontraram expressão política dominante em países como os Estados Unidos, o Brasil, a Itália, a Polónia e a Hungria e têm presença nas oposições da maioria dos países europeus –, tem havido uma campanha mediática forte para os equiparar ao regime fascista mussoliniano que, vai para um século, triunfou em Itália.


Os sinais de alarme contra os “populismos” – contra os de direita, porque os de esquerda são ignorados ou olhados com simpatia, como excessos de generosidade e juventude – e a pretensão de os reconduzir a formas históricas de autoritarismo ou totalitarismo, parecem ignorar as diferentes circunstâncias históricas e as doutrinas e práticas de então e de hoje.


Nesses outros anos vinte, as alternativas que se perfilavam à esquerda e à direita, e que eram declaradamente antidemocráticas, recorriam à violência como forma superior de luta e lutavam entre si e contra um sistema que entrara em falência.  Hoje, a violência física é rejeitada por esquerdas e direitas, e a esquerda tende a apropriar-se da “Democracia”, ou do sistema, para, a partir de dentro, de uma posição de poder, varrer para fora da “normalidade democrática” alternativas à direita que não põem em causa a competitividade democrática, antes, se legitimam através do voto popular.


Por isso talvez valha a pena recordar os anos vinte de há cem anos, começando por lembrar que as circunstâncias das rupturas histórico-políticas se devem mais à incapacidade das classes dirigentes para aguentar novos desafios do que à razão ou mérito das oposições no ataque ao poder.


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A partir deste “zero” como vão vencer? A violência e a radicalidade da revolução soviética, com os seus milhões de mortos, despertara na Europa um clima propício ao estado de excepção permanente para resistir ao que era visto como uma ameaça existencial à civilização; e daqui surgiu o que Ernst Nolte chamou a “guerra civil europeia” – uma luta de princípios, ideologias e concepções de vida totalitárias, que se apoderou de grandes potências e se propagou por todo o Continente.


É com base nesta excepcionalidade – e nas consequências político-sociais e geopolíticas da Grande Guerra – que devemos olhar aqueles anos vinte, e não com uma percepção maniqueísta de ardis e conspirações de um polvo reaccionário desejoso de suprimir a Europa liberal e a liberdade na Europa.


Para entender este tempo, é importante ter em conta estas rupturas e o seu grau de radicalidade. As torturas e massacres das Tchecas soviéticas, o medo que despertaram nas elites e nas classes médias de toda a Europa perante uma revolução que, em nome da utopia, destruíra os factores de uma sociedade livre – desde a liberdade religiosa à propriedade privada – explicam o apoio das classe médias e das elites, não só aos fascistas italianos, mas também aos movimentos autoritários e ditatoriais conservadores ocorridos na Europa Oriental e Meridional, da Polónia de Pilsudski ao Portugal do 28 de Maio.


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Hoje, não há nada de semelhante ao “perigo fascista” nem ao “perigo comunista”. Mas há uma circunstância real, ou percebida como tal pelos povos da Euroamérica: uma ameaça aos valores da civilização laica e cristã – à religião, à nação, à família, à liberdade, à vida – tal como foram entendidos ao longo de gerações; uma ameaça com cambiantes experimentalistas e rupturistas imprevisíveis a longo prazo. Chamar aos que contestam essa decadência, “fascistas”, pode deixar satisfeitos os acusadores e perturbar alguns dos rebeldes. Mas não vai mudar nada.