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07/01/2023

Intenções

Este fim-de-semana talvez reveja os três filmes O Padrinho na Fox Movies. Talvez termine mais um livro. Ou nem uma coisa nem outra.


Este ano talvez leia de empreitada parte substancial dos romances da Mil Folhas, passando à frente os já lidos. E talvez veja os filmes HobbitO Senhor dos Anéis e alguns outros que me escaparam nos últimos 20 anos - e há quantos ando a dizer isto sem que a eles me atire? Ou nem uma coisa nem outra. Talvez tire a carta de condução ou então fique a olhar para as duas condutoras paradas no meio do cruzamento a encalacrar o tráfego, por se terem distraído e passado o vermelho, tal como assisti hoje.


Anda tudo aluado* com o ritmo alucinante impingido por aquilo que alguns querem fazer crer ser a realidade. Desaustinados por intriga e protagonismo. Desejosos de acção, novidade, frisson. Ambicionando audiências, visualizações. Fazem a festa, deitam os foguetes e correm atrás das canas - o que mais vinga e vende. As lições de algibeira  de constitucional, ciência política, penal e demais ramos das leis, jorram em infinda retórica, e tal como as lições de medicina hão-de esventrar os cérebros dos portugueses. Hoje um desses arautos da sabedoria, que perora a toda a hora na televisão (mas podia ser nos jornais e redes sociais - o mimetismo disseminado faz lembrar o cantar decorado de criança ensaiada para os dizeres das festinhas no dia da mãe ou do pai), dizia explicitamente: "os portugueses não percebem" o conjunto ou sequência das intervenções de fulaninho x. Mas claro, ele iria explicar, elucidando essa massa estúpida de gente incapaz de perceber os meandros do fervilhar político, na qualidade de predestinado.  Claro que nasceu e viveu sempre no olho do furacão da decisão e ainda não percebeu que esta razia de exposição da podridão corrupta ao nível das terrinhas municipal haverá num dia - tardio, para mal do país - bater à porta do cerebelo da intriga palaciana na provinciana capital, entrando sem piedade nas cúpulas e compadrios dos partidos, jornais, televisões, empresas com visibilidade e instituições de propaganda cultural. Quem com ferros mata, com ferros morre - a impunidade da retórica não dura sempre, por mais décadas goze de conforto e regabofe.


Enquanto não me decido, vou decidindo o que vou fazendo, encetando dezenas de intenções, que ficam a marinar após a primeira, segunda ou terceira investida - de qualquer modo é tanto o que fica, aquém do que era suposto, além do imaginado. E o isco sempre cá a faiscar. O pensamento há-de prender o anzol e a pescaria vai-se dando em moldes nada convencionais. Um dia o todo surgirá do aparente amontoado de nadas. E se me der na veneta, irá o todo ralo abaixo. É inenarrável o supremo gozo de pensar na hipótese de nada sobrar - sensação de real desapego, de liberdade não encenada.


Ah, e vou nadar. Isso sim.


*Foi Lua Cheia, ontem.