Pesquisar neste blogue

29/01/2023

Diário

Esta noite regressei ao velho hábito do computador no colo enquanto estirada no sofá. Televisão na SIC Notícias para me ligar ao mundo – bom, ao mundo com tempo de antena. Já ontem a deixei ligada após o jantar para ir ouvindo o que se passa por aí. Dois dias de notícias, ena.


Ontem dei por mim a ouvir um dos blocos informativos, no qual um comentador que considerava, pelo registo franco e honesto, demonstrou já se ter deixado corromper nas ideias. Até há poucos anos dizia o que pensava, hoje limita-se a debitar a irritante lenga-lenga do mainstream informativo-opinativo – aquilo a que durante muitos anos chamei mentalidade de jornalista e hoje é a mentalidade dominante no mundo. Deixou de contar, senão para a contabilização do amontoado de gente que se vende às exigências da falsidade e de modo perigoso encaminha o país para o canto da sereia da autoridade. Sejamos optimistas: pode ser que não corra mal e ainda haja tempo. Pode ser que possa continuar a acreditar que não é irremediável o caminho para a vitória do populismo autoritário (por enquanto vivemos de populismo democrático). Pode ser que não esteja enganada como nas últimas eleições, mas a força da mentalidade acima referida é avassaladora e assim sendo é muito difícil vingar o bom senso no quotidiano político e nas urnas – a população sente-se desnorteada com toda a razão e os mantras da comunicação social são de uma pobreza de rectidão insuportável. Não me vou demorar no tema, por já muito escalpelizado nas Comezinhas. A ideia é simples: a lei da rolha imposta pelo politicamente correcto ou tonteria dos zelotes da imaculada democraticidade das almas tem como consequência o engrossar das hostes ditas radicais. O caminho deveria ser o do esvaziar do populismo pelo encarar com verdade e sem falsos pudores as questões melindrosas. Trazê-las para o espaço de debate dito respeitável sem os habituais anátemas. Resolvendo-as. Pegar nas várias bandeiras populistas e encará-las sem medo, por representarem capital de queixa das populações, que jamais devem ser metidas debaixo do tapete ou sufocadas, minando desta forma a saúde da Democracia. Abafar melindres (tantas vezes maioritários, apesar de não reflectidos no voto) significa calar as populações, o que nunca é boa ideia. Mas, lá está, isto é chover no molhado e muito tempo passará e eleições se realizarão antes que estas constatações sejam absorvidas no discurso dominante. Sendo os portugueses gente de meias-tintas pode ser que passemos entre os pingos da chuva, fazendo de conta que não percebemos o que se passa à nossa volta e dizendo frases simpáticas e falsas que quase todos fingem gostar.


Vi também o programa de debate risonho entre o humorista intelectual, o candidato a ministro da cultura de direita e o comentador da voz comum com as antenas atentas mas ainda criticas à voz dominante. O primeiro citou a clássica ‘nada do que é humano me é alheio’ e discorreu sobre as modernas adulterações, o segundo fez uma piada sobre ir a despacho por emoji naquele ar de quem se ora se diverte ora se enfada com este mundo de gente desprovida de decoro e inteligência, e o terceiro chutou para o canto de problema laboral uma dessas questões que provocam imenso pipocar nos corações dos comentadores dos floreados. Disseram muito mais, mostraram muito calo retórico e inteligência e eu estava em simultâneo a tratar de uma qualquer tarefa. Há muito não os ouvia e julgo que passará outra larga temporada sem o fazer. Já houve tempo em que acompanhava esse e outros debates. Cansei.


Hoje a propósito de leituras nos jornais dei por mim a congeminar qual será a corrente não só de estilo e linguagem, tout court, como de semântica, que vingará daqui a 40 ou 50 anos? À parte da sucessão de correntes há sempre aquilo que acrescenta à bola de neve conferindo nova dimensão. É a isso que me refiro e não a movimentos conjunturais. Fico a pensar se será um certo despojo por distanciamento dos depósitos de erudição. Por mais que respeite gente conhecedora de toponímia, referências cinematográficas, literárias, artísticas, históricas etc. e tal, textos com profusão destes expedientes, num tempo de multiplicação de dados, informação e conhecimento, podem cair em desuso. Claro que virão os excitadinhos do costume falar da promoção e vitória da ignorância, na luta inglória pela cultura, nas cruzadas pela erudição. O caso, pelo contrário, é de exigência. Depósitos e catálogos continuarão a ter o seu espaço, mas serão isso e não reflexões. Pensar implica conhecimento, mas também distanciamento dele. Depuramento dos dados, distância da informação. Se puser a mão em cima dos olhos deixo de a ver.