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25/01/2023

Diário

Durante os dias de anteontem e ontem pensei escrever. Mas não foi possível. Enquanto ocupada devaneei. Dei por mim a relatar mentalmente os últimos dias misturados com os eternos projectos que ora se concretizam ora ficam em suspenso. Pequenos episódios, as lembranças associadas, mas não saberia escolher alguns deles para que o post não ficasse extenso e por isso tragável. A seleccionar, possivelmente, o mais relevante é a gente – o essencial. E aí começaria por hoje, pelo facto de ter recebido logo pela fresca mensagem alegre da T., a passarinhar na praia com o gato ainda muito novinho levado pela trela. Depois de trocas de cromos sobre os bichanos de cada uma, combinamos falar no fim-de-semana. As conversas com a T. são longas e fazem-me sempre falta, até por estar habituada a elas há 35 anos e não haver nada como não ter que explicar quem somos a quem nos vai conhecendo de uma vida. Sai (quase) sempre o que nos vai na alma. Orgulho-me particularmente desta amizade por ter sabido preservá-la com presença mais ou menos pontual mesmo em momentos em que poderia tremer. Entretanto deverei ligar nos próximos dias à B. para retomarmos os almoços, desta vez a três, com a minha prima E., de quem “herdei” a amizade da B.. Com elas o grau de cumplicidade é diferente, há muito ainda a explicar, mas nem por isso faço menos gosto na convivência, até porque a curiosidade é muita e vidas muito diferentes da minha levantam sempre véus que me despertam interesse.


Ao saber a T. na praia lembrei-me da mãe dela, que morreu há talvez 15 anos, perco a noção do tempo, e a independência com que já reformada assim que o tempo se punha bom pegava no seu saco e toalha, metia-se no autocarro e ia para a praia, em memória dos tempos de Moçambique. Recordei também os vários familiares da T. que fui conhecendo ou ouvindo falar. Uma família grande de raízes transmontanas. E tudo isto me desperta a noção de ciclo de vida.


Ao pensar no gosto pela praia lembrei-me do meu irmão N. e da S.. E de ter falado com ela há poucos dias esperançosa por ter uma tarde livre de trabalho no dia de aniversário para poder ir à praia. A S. e o N. vão o ano inteiro à praia. O meu irmão T. e a M. R. correm todos os fins-de-semana a cidade de lés a lés a pé em caminhadas matinais. O meu irmão F. e a C. dedicam-se mais à casa e têm muito por onde se entreter. No passado fim-de-semana tive os meus pais cá em simultâneo, em conversa tranquila a quatro. Finda a qual me pus a caminho da piscina para nadar. Naquele dia com particular gosto. A água estava na temperatura ideal (da última vez a caldeira tinha avariado), sentia-me com energia e a disposição era boa. E é assim que a família toda vem à mente de forma recorrente, na presença e na lembrança dela. Uma monotonia só.


O almoço familiar para festejo do aniversário da minha mãe foi adiado para o próximo fim-de-semana e os meus sobrinhos já me confirmaram presença, o que me agrada. Está tudo tratado, é só sentar e usufruir destes laços apertados que servem de esteio à vida de cada um. A minha enteada prepara-se para festejar o aniversário em Amesterdão e o pai vai-lhe dando conselhos sobre a estadia que, naturalmente, ela não quer nem vai ouvir. Estranho seria o contrário. O pai do Nuno celebrou mais um aniversário no Domingo passado. Não estivemos presentes mas fizemo-nos representar por um bolo de massa folhada com doce de ovo. Tudo nos eixos.


Mais umas semanas e ligarei ao meu primo M. para pôr a conversa em dia ou combinar um jantar a quatro – os encontros em casa foram interrompidos antes da pandemia e ainda não os repusemos. Agora não, senão vamos falar da greve dos professores e não estou com vontade de perder tempo com o país e assuntos sérios. E lá para Março, sim, lá mais próximo da Primavera, desafiarei o C. para uma jantarada regada com o vinho que cá deixou há dois anos – espero apanhá-lo nos intervalos de Londres e Amesterdão e Florianópolis - e juntá-lo ao P. - se o conseguir arrancar a Lisboa -. e à T., e respectivas caras metades para reunião de velhos amigos cá em casa. Não sei como caberemos. Teremos de nos apertar nesta sala mínima, mas isso não interessa nada. Convém é não perdermos a oportunidade de estar juntos para podermos dizer todo o chorrilho de disparates que nos vier à cabeça. E o R. que me diga quando vem ao Porto para marcarmos um almocinho – R, estás a ler? Quem sabe para festejarmos os novos caminhos profissionais. Ao P. vou mandar amanhã as fotografias do Ritz, mas não lhe encontro a mancha vermelha na coxa direita. A ver se no decorrer do ano abro o vinho que gentil e generosamente nos deixou na semana passada e lhe fazemos um brinde - terá é de regressar cá a casa, mas desta vez com a C. e com direito a repasto. Isso de conversa a seco tem de acabar.


É, relendo o que está para cima, não acrescentei nada de novo ao que já disse antes no blogue. Os meus pensamentos ocupam-se muito frequentemente das pessoas que me importam e com a ideia da presença delas tantas vezes apenas projectada e às vezes comunicada, nem sempre efectiva. É a vida. O resto, o trabalho, as circunstâncias, as ideias, os grandes e pequenos pensamentos são apenas acessórios.


Para lá de tudo isto há o indizível. Que de muita exposição vivam as Comezinhas, muito mais há reservado, e assim ficará, apesar de poder não parecer.


E, claro, há a própria vida do blogue e daqueles que vão preenchendo parte dos dias com presença virtual. O facto de não ser presença física não retira importância nem valor. Tenho sentido o carinho de alguns dos leitores ou amigos que por aqui passam e deixam os seus comentários. Uns mais recentes, outros já com alguns anos. É muito bom tê-los por cá, tal como é visitar as suas casas online em regime de espontânea reciprocidade. Haja ânimo para escrever sejam quais forem os estados de alma do dia. Deixando de haver vontade de escrever, nada se perdeu. Fecho o blogue levando boa memória até que também ela se feche esfumando. Mas por ora, é para continuar.