Às oito e trinta dei com o nariz na porta da farmácia. Aproveitei, comprei pão fresco na padaria e vim tomar pequeno-almoço a casa com o Nuno, cuja gripe está a provocar dificuldades respiratórias. À hora de abertura, às nove, lá voltei. Adquiri uma catrefada de medicamentos e fiz-me ao curto passeio. Ao atravessar a rua na passadeira reparei na velocidade do carro que vinha na minha direcção e parei antes de pousar o pé em posição que me fizesse correr risco. Abrandou, passei. Comecei a ouvir berros desbragados. Primeiro nem sequer percebi. Eram insultos dirigidos a mim, por ter parado. Uma grunha cujo focinho não vi, de vidro aberto gritava desalmada impropérios. Sem abrir a boca, continuei sem olhar para trás, abri a porta do prédio e entrei. Só ao dar a medicação ao Nuno desabafei, rogando pragas à sujeita – uma qualquer selvagem com volante nas mãos, mais uma. Saí de casa de novo em direcção à paragem de autocarro, já a pensar: a fulana às tantas teve um revés de manhã. Ou seja, condescendi. E hesitei: não sejas parva, é por isso que a grunhice impera, por causa da tolerância com comportamentos destes boçais que estão a tomar conta do mundo, resultado da educação postiça que impera entre pretensas elites feita de chavões, mentiras, meias verdades e manipulação do pensamento comum.
Já na empresa comentei o sucedido com uma colega. Contou-me que hoje ao conduzir teve de conter-se por encontrar uma senhora mais velha a guiar o carro da frente e demorar imenso a cada paragem e arranque. Além de ter dado por si a matutar a razão para um homem ter entrado de determinada maneira na via: pois, o carro é novo, ele ainda não está habituado. Comentei: lá está, teve em consideração o outro. Ao que ela me recordou que não é assim serena todos os dias. Pois não. Não somos assim todos os dias. Mas conheço-a o suficiente para saber que, em regra, é respeitadora. E se todos temos os nossos momentos, há quem faça da grunhice comportamento habitual na vida, de forma frontal ou dissimulada. Primeiro eu, é o lema imposto pelo culto das esfregas na auto-estima. Os cheios de si, dos direitos e da disseminação e verificação manipuladas dos factos e factozinhos e toda a ninharia associada vingam em sociedades onde não se valoriza a educação, mas a aparência dela.
Os grunhos de volante nas mãos, capazes de influir negativamente na vida dos concidadãos, não têm razão para ser diferentes pelo exemplo que acham vir de cima. Confundem o que há de melhor na sociedade com gente endinheirada ou popular, isto é, a elite postiça da troca de favores, das trafulhices venais e dos clichés e contra-clichés feitos delírios culturais ou intelectualóides. Minoria cujo prestígio decorre tão só de trazer o dedo mindinho esticado para disfarçar a boçalidade, enquanto atropela e se aproveita de todos os que seguem na sua vida normal no respeito pelo outro.
Como num lago cheio de lodo os mais grosseiros indivíduos da base sociedade limitam-se a espelhar a sórdida camada de gente que dirige e influencia os destinos do país.
Porquê escrever todos os dias irrelevâncias sobre o meu dia-a-dia e daí partir para considerações que podem parecer forçadas ou estapafúrdias? Será rabugice ou velhice precoce? Ou tão só falta de assunto mais interessante para tratar? Porquê não me debruçar sobre a interessantíssima vida política e mediática portuguesa? Ou cultural? Cada vez com menos vontade de chafurdar nesses lixos viciados, sobre o quais quase todo o comentário só acrescentará mais visco ao lodo. Porquê não levantar questões de elevadíssimo interesse intelectual? Cada vez com menos vontade da mais pequena associação a medíocres pretensiosos. De que falarei amanhã? Talvez de limões, limpeza de sarjetas, pneus de autocarros, unhas encravadas. Tudo será preferível ao visco que vinga nos escaparates e vozes com maior audiência, neste mundo de criadores de conteúdo e entertainers da informação de sucesso.