Pesquisar neste blogue

05/01/2023

Relatório de miudezas

Anda tudo muito excitado por aí, como é costume. Assuntos de suma importância berram estridentes. Vaticinados e esmiuçados apocalípticos cenários de intriga política nacional e de acontecidos internacionais. Efémeros. Gente muito empolgada opina com grande convicção a cada espirro dos protagonistas e macacadas que figuram nos media e redes sociais. Enquanto isso a vida de cada um decorre, fazendo a nossa soma o todo distante das ruidosas agitações – a realidade para lá das virtualidades da opinião.


Hoje a consulta terminou com o médico-cirurgião a prescrever a receita e marcar a próxima consulta para daqui a um ano. Das duas vezes fiquei siderada na forma como rubricou os documentos, começando por uma linha latitudinal um nada curva na parte superior, seguindo o nome estilizado, terminando com outra linha abaixo paralela à primeira. Tudo aquilo obedece a método e exactidão. É assim que se assina sem dissemelhança. É assim que se cortam órgãos humanos com o bisturi. Que inveja – é-me tão distante tal talento.


A receita é de sais de zinco, sulfato do dito para fazer segundo a arte, isto é, manipulado na farmácia Vitália. O aviso da ineficácia dos produtos habitualmente vendidos para a queda de cabelo: o zinco é caro, pelo que apesar dos produtos serem dispendiosos, trazem doses mínimas. Quase nem foi preciso queixar-me, senti o olhar do médico pousar na minha cabeça – depois da vistoria pelo resto do corpo - e quando referi a forte perda de cabelo, disse-me que havia reparado.


A leitura dos exames não correu mal. Os valores estão quase todos bem, salvo a falta evidente de ferro. Terei de voltar a tomar complemento de ferro, informa, enquanto estiver em idade fértil. Enquanto não tiver a menopausa, que espero chegue o mais tarde possível já que aos 33/34 estive um ano em amenorreia e não achei piada nenhuma. Céus, este é o tipo de conversa jamais consentida por gente educada em público. Ou entre possidónias que querem mimetizar gente educada e referem tratar-se de conversa de mulher-a-dias – atirar como exemplo “mulher-a-dias” ou “sopeira” para desqualificar alguém é próprio de gentinha presumida. Enfim, transviei. Mas, depois do zinco, também quanto ao ferro está tudo dito.


O peso está bom e recomenda-se. Pergunta o médico se estou contente e eu, claro, respondo que radiante e se algum medo tenho é de voltar e engordar por falta de juízo. Por mim, fico-me por aqui, não faço questão de ir até o peso ideal ditado pela moda. Falámos das novas técnicas médicas de emagrecimento que passam pelo cérebro, coisa que sempre declinei – há riscos que nunca quis correr. Ao que parece agora há electrochoques para retirar o apetite naqueles casos de obesos mórbidos que não querem/podem ser operados. Também falámos do hipotálamo. Ouvi.


No fim, como quem não quer a coisa, abordei o tema da cirurgia plástica. Há poucos dias vi-me ao espelho com a claridade do Sol e esmoreci por momentos, não me reconhecendo na textura e na falta de elasticidade da pele que sempre me envaideceram – sim, também tenho as minhas vaidades. Já disso havíamos falado antes. Disse que não tenciono fazer as cinco cirurgias que as senhoras tanto desejam nestes casos de sequelas do emagrecimento rápido, mas reduzi-las a uma, no máximo, duas. Explicou-me que só existe um cirurgião plástico no hospital e (vá-se lá saber porquê) está atarefado a tratar de casos urgentes como amputações, pelo que não é viável encaminhar-me para lá. Terei de falar com a médica do centro de saúde e pedir encaminhamento para hospital adequado. Logo se verá o que decido e o que é possível fazer noutras bandas.


Mais uma vez, comigo: SNS cinco estrelas.