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15/01/2023

Diário

Palpita-me que este vai ser um diário muito longo, pleno das insignificâncias dos meus pensamentos no último par de dias. Esta manhã está sol, dormi muito pouco por ter estado a fazer contas à vida de madrugada – se há momentos frutuosos para a contabilidade doméstica, são as primeiras horas do dia.  O quarto é luminoso e nestas manhãs soalheiras de fim-de-semana gosto de pegar no computador e escrever aqui deitada na cama junto à janela radiosa – apesar de ser raro. Depois do Ritz gozar 10 minutos de liberdade lá fora, fi-lo entrar e deixei uma fresta da vidraça aberta para correr o ar frio dos dias bonitos. Outro dia um amigo dizia-me, aqui em casa quando veio dar a vacina ao gato e brinquei por ele estar de manga curta numa manhã fria, dizia-me que gosta de apanhar o frio da manhã. Percebo. Por isso gosto tanto de andar na rua no Inverno a apanhar ar gelado na tromba – mas não nos braços. Apesar disso hoje decidi não andar por aí nem ir à piscina atenta a gripe que me assola nos últimos três dias.


As contas que fizemos ontem à noite prendem-se com os gastos absurdos do último mês e meio. Um rombo imenso que ainda vai continuar. Dezembro é por si um mês de muitos gastos com as festividades, juntando-lhe as obras e arranjos deste Janeiro – além das interiores, pagámos mais uma batelada para a fachada das traseiras do prédio; a ver vamos quando começa o raio da obra -, a coisa tem sido exagerada. Por isso, tivemos que tomar pulso à vida e decisões. Se queremos ir este ano à Turquia – em Novembro de 2021 escrevi aqui que tinha vontade de visitar Amesterdão, Istambul, Moscovo e São Petersburgo -, teremos de apertar cordões à bolsa. Calculámos por isso os gastos supérfluos dos últimos quatro meses. Acabar com as compras da UberEats permite uma poupança mensal significativa. Daí partimos para engendrar menus para as refeições diárias. Como não tenho a mais pequena paciência para sites de receitas, a fórmula complicómetro das ditas impele-me a fechar essas páginas em segundos ou fracções deles. Digamos que no meu espírito cozinhar tem a mesma lógica do conceito (credo, usei esta palavra) de mobiliário IKEA. Deve ser inteligível e prático sem rodriguinhos que não acrescentam nada em termos de melhoria de textura e sabor, só enchendo o olho ou a presunção de perfeccionismo rococó. Além de também não ter paciência para os discursos postiços do amor e carinho com que se deve cozinhar. Dediquei-me por isso a sugerir ao Nuno que víssemos as páginas dos legumes e misturas congeladas no site do Continente, tal como frescos. Passámos depois aos hidratos e leguminosas e para um punhado de formas de os cozinhar. Depois a carne, peixe e marisco, em rigor, bivalves, já que por causa da alergia do Nuno perdi o hábito dos crustáceos. Depois de passar pelos ingredientes base e modos fáceis de os confeccionar, engendramos 17 menus muito simples para usarmos nos próximos meses – sei que alguns depois entram na rotina; é assim que vou fazendo ao longo dos anos. E no fim programamos as refeições da próxima semana, acabando a fazer compras online em função dessas escolhas. A ideia é ir reduzindo o que temos em casa àquilo que vai ser consumido na semana, até porque o congelador não é grande, e saber de antemão o que vamos comer durante a semana para não passar pela enorme chatice que é ter de pensar a cada refeição o que fazer. Até sob o ponto de vista económico convém, por nada ser mais pródigo do que os apetites momentâneos. Teremos direito a esses momentos, mas não é conveniente fazer deles a regra. Quase todas as considerações de economia doméstica feitas neste parágrafo foram feitas no passado. A largueza relativa do último ano e meio levou-me a relaxar nesta matéria, mas se quero voltar a viajar este tipo de poupança e outros são essenciais. Não sei o que o futuro me reserva e a ideia de voltar a passar 10 anos sem sair de Portugal, com uma ou duas pequenas excepções, não me agrada.


Hoje ao acordar estive a percorrer mentalmente as viagens que fiz e os lugares onde me senti ou não senti em casa. Dos 15 países que visitei poucos me serviriam de lar. Ou melhor, não sejas imbecil, rapariga, qualquer um serviria em caso de necessidade. Mas vá, via-me a viver em Brisbane ou mesmo Sydney (eu que dizia não querer viver em nenhum grande centro urbano), em Amesterdão ou em Bournemouth, mas não numa das cidades italianas que visitei, apesar da beleza – deslumbre mesmo – ou em Paris, ou em Praga, ou em Los Angeles – apesar dos atractivos de cada uma delas. Há terras em que me sinto forasteira – na verdade, sinto-me assim no mundo, incluindo Portugal, mas isso é outra história -, e outras em que sinto aquele conforto de lar. Em Amesterdão vejo-me a viver num pequeno apartamento naquelas casas austeras cujo alpendre parece ser o principal toque de graça, sair de casa para trabalhar – até me habituaria a andar de novo de bicicleta -, ir ao banalíssimo supermercado Jumbo, apanhar o autocarro, visitar museus, assistir a concertos, ir a uma loja de ferragens comprar pregos para pendurar quadros. É uma terra funcional. Nada disto me aconteceria mentalmente em Paris ou Florença, apesar do meu fascínio pela segunda e de ter sido concebida na primeira. Não é minha, não me pertence. Mesmo Luanda, que é o mais aproximado da minha terra de nascimento, afasta-me pelo clima húmido. Hei-de voltar a Angola, mas irei para Sul. Pela mesma razão, o clima tropical me afastaria de Singapura, apesar da ordem e segurança.


Não ter casa própria nem carro e gastos inerentes permitiu-me viajar um pouquinho nos 20 e, admito, o facto de pisar os cinco continentes deu-me alegria. Se há coisa que não me arrependo é das viagens. Há quem ache que é uma opção; não foi. Não programei nada disto nem a minha vida pessoal e profissional potenciava o punhado de viagens que fiz. Foi a forma como a vida correu. A impossibilidade de organizar a vida com compromissos, como o fazer um empréstimo bancário para ter casa própria, pela inexistência de um vínculo profissional, leva muitos hoje como já na minha geração a uma vida que é tida por mais livre ou, para os mais críticos, irresponsável. Possivelmente se tivesse ficado a trabalhar num dos primeiros bancos por onde passei lesta e saí pelo próprio pé, teria tido casa aos 20. Possivelmente se tivesse casa teria sido mais fácil orientar a vida afectiva – ou não, nunca se sabe. Chamar a isto opções ou escolhas de vida é manifesto exagero. Talvez seja apenas um misto do correr da vida face às circunstâncias do mundo actual e a natureza de cada um.


Ou esses tempos ou a última dezena e meia de anos em que tudo se passa à volta da casa. Ontem, por exemplo, cá estivemos nos arranjos domésticos. A manivela do estendal funciona na perfeição – é bom que assim seja atenta a exorbitância que custou -, mas depois de feita a máquina da roupa fiquei apreensiva. Este estendal leva menos roupa do que o de pés, que tinha abas – já está atrás do frigorífico para não ocupar espaço. Finalmente o intercomunicador voltou a funcionar na plenitude. Passou a vida a cair às mãos do Nuno (e minhas, às vezes). Até agora era eu que arranjava os fios na placa de contactos com palitos e fita adesiva – o Nuno foi-me dizendo como fazer. Mas há meses estava bastante espatifado, apenas a tocar e não falar. Pena o telefone “novo” ser creme e a base branca - soluções de recurso do Sr. A.. Poderia sempre inventar que foi de propósito para criar dissonância na decoração nas utilidades da cozinha, mas não, digo que ficou um nada mal-amanhado. Na casa de banho notou-se o facto do Sr. A. estar mais velho e com mais preguiça ou lentidão mental. Calculou mal os furos para pendurar o espelho e acabou por fazer quatro e ainda assim não encaixava apesar da segunda medida estar exacta – bruxedo, concluímos, até que eu saísse do recinto para não dar mais azar. Dito e feito, depois de 10 minutos de insistência sem sucesso, assim que saí o espelho encaixou. A propósito destas tarefas domésticas e bricolage vem-me à ideia a conclusão que sempre tiro: jamais conseguiria conviver de forma harmoniosa com alguém que não valorizasse a casa e estas actividades práticas. Ao longo da vida convivi com muita gente e sempre achei soporíferos indivíduos que vivem apenas de teorias, molduras e conversa fiada – para quem está há uma hora a escrever este postal é preciso ter lata, não é? O que quero dizer é que a intelectualidade ou sobranceria desprovida de sentido prático e amor aos objectos e funcionalidade do dia-a-dia me entedia. Idolatrar objectos pelo seu valor ou aparência condizente com as modas do momento ou pertença a estilos marcantes do passado é-me estranho, ou melhor, esses aspectos passam-me ao lado. Indiferença total. Por incrível que pareça passa neste momento uma borboleta branca na varanda, vejo-a daqui; no Inverno, céus. Talvez por isso goste do IKEA e tenha gostado de visitar Amesterdão. Tal como me aborrece enormemente o esconder da verdade e dos aspectos comezinhos da vida. Não acredito na superioridade de tretas conceptuais desprovidas de vida, de verdade. Pouco nos últimos dias me dá tanto prazer como a série de luzes de Natal que deixei de forma o mais pirosa possível pendurada na parede. Agora entra o Nuno saído do banho com barba feita – isto é, despido do alentejano de má raça que trazia vestido nos últimos dois dias. Ontem dormi parte substancial da tarde no sofá para me reestabelecer do cansaço da exigente manhã e também da neura, no conforto das quatro cores das luzes que me reportam à infância. É aconchegante, como nunca seria um móvel só por ser de autor ou representativo da corrente xpto. Gosto que tomar posse do que me rodeia e tomar posse significa não uma forma de dominação, pelo contrário, quer dizer que integro os objectos na minha história, que fazem parte do percurso de vida e que me foram úteis e aconchegantes sob o ponto de vista prático e afectivo. Não gosto de inutilidades nem de supérfluo. E odeio o dar o ar de. Abro uma excepção para quem tem arte e bom gosto – qualidade que estou longe de possuir -, conseguindo criar espaços harmoniosos com arte. Mas esses são raros, apesar das montanhas de conceitos e paradigmas da conversa fiada da decoração e arquitectura de interiores.


Por falar em conversa fiada, isto hoje está lindo. E dura, dura. As mulheres falam demais, algumas mais ainda do que as que falam demais. Admito, falo pelos cotovelos: ela conversa com  todos, conseguiu pôr a conversar o mais mono dos alunos da turma que não abria a boca, dizia a professora de português no ciclo. Não há nada que não possa ser falado a menos que se queria dar ar do que não se é. E agora, o que falta contar? Ontem de manhã fui à ourivesaria aqui da rua para apertar o anel que trago a uso, não fosse ficar sem ele tantas foram as vezes que me saltou do dedo. Como por vezes o Nuno e eu vimos alianças nas montras da ourivesaria, ontem resolvi perguntar o preço de um par delas de 2.8 milímetros – calma, não tenho decorada a medida, perguntei ontem -, e fiquei a saber que seriam 700 euros. Pensei de imediato que me dá muito mais gozo o novo lavatório, como irá dar a cabine de chuveiro ou a viagem a Istambul – para qualquer deles esse valor é significativo. Perguntei ao Nuno o que achava, disse-me que usaria a aliança com gosto, mas se eu achar um desperdício, passa bem sem ela. Falámos também de casamento e disse-lhe que tal como as alianças - mais do que elas, em rigor – continuo a temer o azar que esses selos formais de compromisso trazem. Além de mais e na verdade não percebo a necessidade de casar para além das questiúnculas legais, com que me preocupo pouco. Digamos que a instituição casamento é como um móvel de autor, ora eu sou mais pelo prático e funcional e encontro mais afectividade numa série de luzes da loja do chinês. Há uns tempos uma colega dizia-me que acha horrível o termo companheiro – ela também vive em união de facto e o mesmo drama de saber como se referir ao companheiro diante de outras pessoas. Para ela dizer companheiro é coisa de ilha, de gente sem educação. Já eu associo aos camaradas comunistas, vá-se lá saber porquê. Mas não me faz espécie nenhuma. Chega uma idade em que começa a ser ridículo dizer namorado, como concluímos as duas, e marido dá sempre aquele ar de estarmos a mentir. Farto-me de dizer marido e corrigir logo a seguir – bom, ele não é marido ou não somos casados -, como se me justificasse. O que é de um ridículo só. Por isso, nada como a verdade: companheiro. Camarada de luta (isto diverte-me). Aliás, devia dizer homem à moda do Porto, como ele diz mulher, sem qualquer problema – acrescentando para eu não duvidar, e não há razões para dúvidas apesar de saber que sendo homem nunca diz a verdade inteira: sinto-me casado contigo. Dando sempre a ideia que correspondo ao ideal de companheira e a nossa casa ao verdadeiro lar. Tal como eu, não na questão da idealização, porque não tive um ideal de homem para a vida inteira, mas na mais terrena convivência prática e afectiva, nenhum outro homem entrou na minha vida como tamanha cumplicidade, conseguindo transformar-nos em família. Em suma, casar ou não casar nada tem a ver com amor, com entendimento ou ligação. É uma questão de gosto e também de honestidade. Continuo a dizer que prefiro casar apenas aos 80 anos pela Igreja – coisa que podia ter acontecido há anos como acontecer hoje se tivesse vontade -, se ambos estivermos vivos para agradecer a Deus ou ao Universo (depende dos dias) o que vivemos, do que fazer promessas futuras sem sentido, não sabendo sequer se algum de nós tem intenção de as cumprir. Odiaria viver a mais importante relação afectiva da minha vida como se estivesse a cumprir um contrato, ou a prestar contas ao Estado misturando afectividade com legalidade. O Nuno, concordando parcialmente comigo, acha possível as duas situações, não vendo o casamento de forma tão negativa.


Pronto, falei de gripe, viagens, ferragens, casamento e luminosidade. Está tudo muito bem apesar de não ser quase nada do que pretendia escrever quando abri o post. É o que se chama não ter ponta de vergonha na cara – há formas mais grosseiras de dizer esta última frase, mas além de vulgar não faria sentido nenhum, como aliás na maioria das vezes que leio essas expressões. Tal como não gosto do supérfluo, detesto o uso excessivo da vulgaridade para ter impacto ou criar reacção. Porquê isto agora? Não faço ponta de ideia, saiu. Sei que ia escrever, isso sim, sobre outro tema, mas como é costume varreu-se-me. Já agora conto que varro duas vezes ao dia uma zona da casa por causa da areia do gato. Como sobreviveriam os pouquinhos leitores das Comezinhas sem esta última informação?


Lembrei-me agora do que faltava falar. Há uns dias pareceu-me que alguém sugeria que tendo eu nascido numa família muito conservadora não o era. O Nuno diz que sim, que isso define o meu percurso ou movimento. Pelo que percebi acha que não sou carne nem peixe, ou seja, tendo para o liberal que aprecio, mas trago o conservadorismo do meio agarrado à pele. É certo que nasci numa família muito conservadora, mas nunca senti necessidade de rebelião. Agrada-me o conservadorismo, dou-lhe é umas valentes facadas quando não faz sentido.