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17/12/2021

Trapézio da rede furada

Uma ideia repisa a minha mente nos últimos anos, sem que a consiga ainda concretizar com exactidão. O capital humano está a levar o mesmo caminho do capital financeiro.


A todo o instante me deparo com absurdos no tempo despendido na prestação de qualquer serviço e presumo que o mesmo se passe com a produção e distribuição.


Seja ao balcão de um banco ou nos cuidados de enfermagem num centro de saúde, seja a tratar do transporte e entrega de um produto ou a preparar uma semana de aulas, o manancial de procedimentos e formalidades associadas a cada um destes actos vai-nos afastando a um ritmo alucinante do cerne da questão: conservar, administrar, poupar ou investir dinheiro, cuidar da saúde, entregar objectos ou instruir.


(veio isto a propósito da dita necessidade de mais médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar num país como o nosso que tem um excelente rácio médico/habitante; estamos face a um sumidouro de recursos e em causa pode bem estar a ideia que subjaz a este postal – a par de outras como a má gestão.)


Nos últimos 20 anos, até por experiência própria, apercebo-me do cavalgar insano de duas correntes: simplificação e eficiência, por um lado, e segurança e qualidade, por outro. Da segunda ainda não tenho opinião completamente formada, o que não invalida que tenha o direito a dizer que a sensação de absurdo se assemelha à primeira. Quanto à simplificação verifico sistematicamente que por cada mecanismo implementado (pronto, ao fim de 30 anos já podemos usar a palavra, até porque os sinónimos não ajudam), é criada outra ou, na maioria das vezes, outras tarefas adicionais. O mesmo vale para a eficiência, o que convenhamos é um contrassenso.


Este rendilhado de cúmulo sucessivo de novos procedimentos começa a tornar a vida impraticável e será a isso mesmo que seremos conduzidos a breve trecho.


(de referir que muito do que se refere neste postal decorre de obrigações legais e regulamentares em catadupa.)


 Qual o perigo disto?


Imagino que a muitos este postal pareça apenas uma ingenuidade de alguém arcaico, simplista, fora da realidade ou tão simplesmente impreparado, não percebendo a sofisticação das relações sociais e económicas, nem a necessidade de as regulamentar por imperativos de justiça e segurança; alguém que desconhece por ignorância ou preguiça as leis do parlamento ou os decretos-lei e regulamentos do governo.


Seja. De qualquer modo, vou adiantando que me parece (sim, como não estou convencida de carregar comigo a verdade do mundo num minuto para num momento posterior a desdizer sem me justificar fazendo de conta que nada disse de contrário anteriormente, e como tenho sempre dúvidas reservo-me o direito de amiúde achar, parecer, crer e ter sensações): o trabalho, o capital trabalho está a tomar o caminho do capital financeiro. E se todos podemos constatar o absurdo e o perigo de cair na especulação financeira, percebamos o que é viver a especulação laboral. 


Com toda a panóplia de teorias económicas, o toma lá dá cá entre a brigada do reumático sindical e o snobíssimo patronato parece um número de trapezistas feito sobre uma rede a ser tecida por mãos inábeis – mas muito convencidas da pertinência do seu trabalho e sempre críticas da falta de redes de segurança eficazes - numa infindável malha abstracta e especulativa que em teoria servirá para garantir eficiência na segurança em caso de queda dos artistas, mas na realidade romperá a cada tombo.


O que quero dizer é que se já nos foi nefasta a especulação financeira e se vamos percebendo que foi o caminho para a absoluta impunidade por parte de oportunistas – que existem desde que o mundo é mundo, e existirão até que o Sol se extinga, a menos que se descubra outra estrela que nos acolha longe daqui – é aterradora a ideia da especulação do trabalho. Estou a falar de gente, seres humanos. Da humanidade a trabalhar sem qualquer critério de justiça ou segurança por capitulação do sistema – cada vez mais afastado da razão primeira, da causa, de cada actividade - capitulação dessa malha de aparente sofisticação legal e procedimental que dá trabalho a tantos iluminados e esclarecidos, que desconfio não terem tempo ou vontade para colocar em perspectiva o interesse e as consequências do seu próprio labor.