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23/12/2021

Ao que assisto desde criança

É muito curioso ler ou ouvir declarações inflamadas contra a injustiça de escolhas para determinados prémios, cargos ou tarefas. Os mesmos que escrevem e discursam com grande propriedade contra o compadrio ou mediocridade na selecção, rejeitam a mestria ou atiram sistematicamente para lugares subalternos e invisíveis gente de qualidade por medo ou cobardia – a ousadia e exigência assustam – para premiarem a vulgaridade.


É um vício nacional, estando longe de só se verificar na política que, aliás, só replica os usos da sociedade. Protela-se o país dissimulando a injustiça, fazendo de conta que não se repara no mérito alheio - de que se tira partido a bel prazer - e fabricando meia dúzia de elogios floreados, forçados e imerecidos a quem faz parte das tribos influentes para tentar convencer papalvos.


Os mesmos que observando o passado enunciam as grandes injustiças que se fizeram com vultos a quem mais tarde se reconheceu grande valor, durante a vida desconsideram semelhantes valores, chegando mesmo a desprezá-los para dar espaço e enaltecer vacuidades.


Os mesmos que louvam a independência de pensamento de raras figuras destacadas são incapazes de respeitar a liberdade e independência de gente comum, que não faça soar as sinetas do poder, dos interesses, da popularidade, da polémica - enfim, de tudo quanto tenha valor venal.


É o país que temos.