Sou cliente habitual de uma loja chinesa na minha zona de residência. Conheço bem as afirmações peremptórias de quem diz negar-se a entrar nessas lojas e as críticas à falta de qualidade dos produtos vendidos, mas o certo é que é um local onde me sinto bem e sempre encontro objectos que não são em nada piores do que os vendidos noutros espaços – em muitos casos a proveniência é a mesma: o trabalho mal pago oriental – sobre a qual se coloca uma etiqueta de marca e um carimbo de uma qualquer directiva que regula as isos da qualidade. E diabo seja cego, surdo e mudo, mas que raio de mundo absurdo é esse o das isos.
É certo que estas lojas também têm produtos de fugir: fitas colas que não colam, sapatos de cartão que se desfazem quando chove etc. Produtos que não me atrevo sequer a experimentar como comestíveis ou detergentes.
Compro coisas como pen drives, cabos informáticos e áudio, capas ou protectores de telemóvel, molas de roupa, toalhas de mão de cozinha, esfregonas, coisas desse género. Hoje fui lá porque a capa transparente da parte detrás do telemóvel amarelou ao fim de um ano de uso e quero-a substituir por outra.
Os donos são um jovem casal com filhos pequenos e está muitas vezes presente um senhor mais velho, que presumo ser avô das crianças. Sempre que entrei na loja e cumprimentei fui correspondida com simpatia.
Hoje não tinham o que pretendia. Logo se dispuseram a encomendar e entregar-me a capa no próximo Sábado. Coisa que aliás já sucedeu antes com outros produtos – imagino sempre que um dia por semana vão a Árvore, em Vila de Conde, reabastecer-se de stock, e creio que será mesmo assim. Um dia pergunto. Reparei das duas vezes no caderninho do dono da loja para anotar as encomendas: sempre repleto. E mais notei ainda que escreveu o meu nome sem qualquer erro e o número de telefone num ápice enquanto eu o ditava.
Fico a pensar nos muitos chineses que atravessam o mundo para virem para uma terra com língua diferente e como em pouco tempo a aprendem a manejar – são coisas que me fazem admirá-los, até por alguma similitude com os portugueses que se despacham pelo mundo.
Tão diferentes de nós agarrados ao rectângulo sem esforço, sem despacho, sem progredimos.
Quando vi o rapaz começar a escrever, hesitar um milésimo de segundo, e grafar o nome correctamente lembrei-me do dia em que fui pedir o cartão da Biblioteca de Gaia – creio que aos 13 anos – e da funcionária da dita ao compor a écharpe típica da função pública ter escrito no formulário Ezabel ou Esabel, já não estou certa mas que começava por “E” recordo.