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09/12/2021

Verdes – Bichos

Onde há verdes há bichos. O terreiro de Valinhas da minha infância era pródigo em insectos. Dos que mais me ficaram na memória: os oblongos de pouco mais de meio centímetro, cor-de-laranja pintalgados de preto, com a particularidade de estarem acoplados em permanência deslocando-se sempre unidos em par. Não me recordo dos bancos e escada de pedra, do chão senão com estes bicharocos a deambular sobre a pedra ou a terra fina castanho muito claro. Pensando bem esta era a cor de Verão, por isso é possível que vivessem no tempo quente. Há uns anos procurei encontrar a designação destes insectos, mas não consegui encontrá-los. Mais uma tarefa a anotar. Há algum tempo falando destes estranhos insectos, diziam-me que deveria tratar-se de uma praga – quase levei a mal: para mim eram marca da casa.


Havia formigas a fazer carreirinhos no terreiro e na rampa de acesso a casa, libelinhas a rasar as águas dos tanques ao fim da tarde, abelhas e abelhões bastantes, especialmente no tempo em que as tílias floriam, mas também sempre em redor dos canteiros de flores. Verdetes, o insecto verde das plantas que cheira muito mal e nos anos maus escaravelhos da batata – esses sim uma verdadeira praga.


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Entre os que me assustavam verdadeiramente: as bichas-cadelas e as cabras-louras, que devem ser primas das carochas e diziam os meus colegas da primária que sete matavam um boi – nunca comprovei se era verdade apesar de na quinta haver bastantes vacas e bois. Um colega de escola gostava de apanhá-las e segurando com a mão aproximá-las de mim, o que me deixava aterrada de susto. Uns anos mais tarde, resolvi fazer a limpeza num dos quartos e lembro-me de no fim, tudo pronto e banho tomado, ir enfiar os pés nos chinelos e ter a presença de espírito que naquela casa sempre era precisa sacudindo-o antes de calçar: sai-me de lá uma cabra-loura vivíssima. Esta lá foi parar por acaso, mas às vezes um dos meus irmãos gostava de me pregar partidas, uma delas consistiu em enfiar um sapo – também viviam por lá - dentro do meu quarto.


Num Verão tive um coelho, quando voltei de férias já lá não estava. Alguém o comeu. Também os havia selvagens e por isso caçadores na época própria. Um deles, o caseiro, que tinha porco e chegada a hora fatídica lá o matava. Nunca quis ver, aliás, procurava ir para o mais longe possível para não ouvir os guinchos do pobre do bicho. Anos mais tarde explicaram-me que parte da gritaria resulta do momento em que estão a prendê-lo e não da faca.


No momento em que começava a anoitecer gostávamos de atirar pedrinhas ao ar para chamar os morcegos que voavam picado em direcção às pedras. Uma vez por outra entravam dentro de casa. De madrugada piavam as corujas. E a passarada por lá era variada. Assim de memória: pardais, boeirinhas (alvéola), melros, pombas, pica-paus, pegas, poupas lá fora e bicos de lacre na gaiola.


Ratos também havia quanto baste. Pelo que passaram pela casa uma data de gatos para tratar do assunto. Gostava dos bichanos, preparei almofadas onde as gatas tinham as ninhadas. Lembro-me de uma que teve os filhotes dentro de um pneu – também repousavam pneus por lá, por causa da mania dos carros. Lembro-me de assistir muito quieta ao parto sucessivo da ninhada. O último gato que tenho memória, já não vivia lá há muito chamava-se Sião. E dos cães foram várias gerações. Quando fui para lá existia o Faruk – havia o hábito de colocar nomes árabes nos cães, como Sidi, Sadat e Raja. Depois tivemos os nossos: o Ritz e o Tim. Ritz do meu tio G., que no seu espírito pragmático olhou para marca de cigarros que fumava quando teve que decidir o nome do cão, e Tim do meu irmão mais velho pela inevitável leitura das aventuras de Enid Blyton. A estes se seguiram uma série deles, como a Preta, o Noé, a Fusca e o Sapo - este último nome antigo do cão da casa nos anos 40/50? (?).


E cobras que surgiam quando menos esperávamos entre a erva junto às pedras dos muros dos patamares. Tal como nas matas onde era preciso ir bem com os olhos postos no chão a afastar o mato com um pau. Largavam as cascas nas rochas maiores pregando-nos sustos à distância.


Com toda a certeza existia muito mais bicharada – como as moscas ou muito mais tarde quando há muito deixara de lá viver, os esquilos -, mas por hoje foi a que me ocorreu.


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