Ocupar os dias numa qualquer casa. Uma que tivesse um canto onde pudesse escrever. Ânimo e talento para o fazer. Uma estante onde coubessem os livros – que não são muitos nem nunca chegarão a ser – e uma aparelhagem (já não se usa o termo) com colunas de onde saísse boa música. De preferência com rádio. Como aquela banal que tenho há vinte anos. Um rendimento a cair de qualquer coisa que não me moesse o juízo nem me causasse permanentes correrias e ansiedades. Coisa um pouco distante do que existe, mas nem por isso posso dizer que tenho um mau emprego. Sucede que fico sem tempo para estar comigo e sempre precisei disso. Dá ideia de exigência de geração mimada, que não soube o que era a real pobreza e dificuldades, nem os confrontos brutos com a crueldade da lei dos mais fortes, dos dominantes. É certo que já nasci num tempo de amenidades, de tolerância face a características individuais diferentes. Tal como muitos na minha geração e mais ainda nas gerações seguintes. Mas falta-nos tempo para estar connosco próprios e com os outros que escolhemos.
Poder contar com os que amamos enquanto vivem, tal como nós ainda vivemos. Rir com eles, conversar com eles enquanto andámos pela rua, abraçá-los na despedida que pode ser só até ao dia seguinte. Repetir vezes sem conta estes e outros pequenos prazeres. Poder jantar com amigos de longe a longe para não os cansar com a nossa presença e não transformar a amizade em vício e obrigação. Ter o prazer de os rever e haver mudança nas suas vidas a revelar, para além das trivialidades de que a convivência no dia-a-dia imporia.
Poder passear e viajar. Quem sabe meia-dúzia de voltinhas anuais pelo país e uma saída ao exterior para treinar a musculatura do corte com as convenções do que vemos, olhamos e cheiramos. Viagens: umas para espreitar aquilo de que sempre ouvimos falar mas não provamos com os sentidos, outras para pura e simplesmente nos deixarmos levar pelo destino e surpresa. Uma grande viagem por década – está a faltar a dos 40; nos 20 aos Estados Unidos e à Austrália, nos 30 a Angola, nos 40 onde será? É o desejo de estar uns meses fora de Portugal. Deixar-me ir. E, claro, a ideia de adolescente de viver fora por uma temporada, que aos vinte e muitos logo me passou, ao começar a sentir que tinha no Porto um refúgio junto dos meus que me fazia sentir bem e disso não abdicaria. Lembro de conversas com amigos à época, que me diziam querer sair e pensar: para quê? Para ter vidas estúpidas e ansiosas daquelas em que se usam aviões como um qualquer autocarro ou comboio para ir e vir a casa e se passa mais tempo em aeroportos e escalas do que com os amigos e os familiares? Mais tarde voltou a antiga vontade de romper e pôr-me à prova. Um anito ou dois a viver num outro país não está fora de causa. A vida dá tantas voltas, nunca se sabe. Para já e sem vislumbrar nenhuma oportunidade para que isso aconteça, a menos que me proponha ir para Berlim, o que era uma hipótese que sei viável, penso nos últimos tempos em visitar Amesterdão, São Petersburgo, Moscovo, Istambul. Várias hipóteses e se acontecer uma já ficarei radiante. Seria bom.
Voltando à casa, ando na indecisão entre deixar-me pelo apartamento onde estou confortável e reavivar o velho desejo de casa com jardim. Tudo tem as suas desvantagens, estou numa fase de pensar nelas. Talvez então uma outra casinha mesmo muito pequena que possa alugar algures, mas que tenha jardim de que me possa ocupar.
Ter paz de espírito para viver e entender-me com o Nuno sem os sobressaltos de uma mente e um coração eternamente adolescente, eternamente descontente. Uma vida boa seria assentar no sentimento com a harmonia e o sossego que me são estranhos. Este desejo sempre insatisfeito de qualquer coisa mais. E daqui partiria para tantas e tantas considerações sobre vidas mais lisas, mais fáceis. Coisas que em regra ninguém aceita que se diga, rematando logo com aqueles chavões de que não há vidas fáceis nem bonitas e todos fazemos escolhas e se lutarmos pelo que queremos sempre conseguimos. Tivessem noção dos obstáculos, dos pedregulhos em que alguns de nós estamos destinados a tropeçar seja pelo que transportamos na mente seja por imposições do mundo físico, e pensariam duas vezes antes de recorrer ao lugar-comum. Uma vida boa seria uma vida normal, daquelas que para parte substancial da humanidade é um dado adquirido e para outra parte da humanidade é uma impossibilidade ou cúmulo de dificuldades. Se nunca deixei de ter consciência das vidas realmente difíceis ou trágicas e de colocar as devidas porporções nas minhas misérias, há dores que não saram por sabermos que outros sofrem mais.
Ter coragem para ter um filho. Não para o pôr do mundo, por já não fazer sentido, mas ter um filho para mimar, cuidar, educar. Para viver e dar mais sentido à vida. Isso seria uma vida boa. Coisas tão simples.