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06/04/2025

Diário 6 de Abril de 2025


 


Quase às quatro horas da tarde de Domingo começo o Diário deste fim-de-semana debruçando-me sobre as telas que vi numa história de 2019 aqui no Medium. Como acontece diversas vezes, os postais que refiro nestes diários são de anos anteriores. Escolho em função do interesse que me despertam e não pelo facto de serem recentes ou estarem alinhados com os temas da actualidade. Aliás, uma vantagem do Medium em relação à SapoBlogs é que, em regra, os autores/leitores procuram ler nos espaços de outros autores por temas e não por datas, sendo muito comum abrirem histórias com semanas, meses ou anos.


Vamos lá à pintura. Como sempre informo: a história que deu origem a este postal está afixada na Reading List. O autor eleito nesta semana fala-nos do trabalho de Jen Dale, historiadora de arte, curadora e pintora, e mostra várias telas a óleo da artista, cujo trabalho satiriza os modernos tempos de ansiedade. Em seguida, socorrendo-me da interpretação do autor do post, falo de cada quadro. Na Alegoria do Facebook deparamo-nos com uma cena de confronto num bar, duas mulheres lutam com um taco de snooker, dois homens batem-se, uma mulher reza enquanto um homem a ataca com um extintor de incêndio e uma figura está prostrada na mesa já inanimada. Em suma, uma representação da agressividade das redes sociais em ambiente pós-eleitoral nos Estados Unidos (note-se que o artigo é de 2019). Na Alegoria das Alterações Climáticas vê-se uma mesa de póquer com quatro jogadores cujos olhares não se cruzam, não há contacto visual directo. Cada um olha o outro ou a mesa reagindo de forma distinta: surpresa, medo, desprezo ou apatia. Está bem expressa a desconexa discussão acerca das alterações climáticas cujas posições tão divergentes impossibilitam o diálogo. Na Alegoria da Pós-Verdade vemos um místico frente a uma mesa que nos faz lembrar uma natureza-morta clássica a que não falta o livro - talvez a Sagrada Escritura -, o crânio e o globo, ao qual se juntam elementos das ciências como frascos, mas também desconexos como um regador e uma molheira, e elementos mistério como a vela e o candeeiro a petróleo e o toque especial da bola 8. Na parede por detrás da figura do místico uma lousa com linguagem orwelliana. A representação perfeita da manipulação da linguagem e distorção da verdade. Na Alegoria da Pintura temos um auto-retrato inspirado nos clássicos, com a nuance do pano amarrado à boca — a poesia muda — ser um soutien, expondo a censura à expressão feminina. Por fim, na Alegoria da Depressão fiquei sem perceber se o autor da história considera mesmo que se trata de uma cena íntima de ternura de um casal. O que vejo na tela é puro artifício. Descreveria antes como farsa de intimidade, com os clichés dos olhares embevecidos e apaixonados na consciência de estarem a ser observados pela câmara. Os chavões cinematográficos da boca entreaberta da mulher sobre quem o homem se debruça segurando delicadamente a nuca para a beijar — a cena podia ser tirada da Branca de Neve. A depressão está precisamente no fingimento dos sentimentos retratados. Brilhante ao denunciar a falsidade dos mostruários de amor dos tempos modernos e consequente vazio íntimo depressivo. Se quiserem espreitar, encontrei esta página sobre a pintora.


De resto, o que dizer destes últimos dias? Já descrevi nas Comezinhas o momento relevante de Sábado de manhã e o de Domingo de manhã. Mas continuemos a estimular a produção de dopamina falando de mim própria e da vida trivial. Assunto já muito explorado nas Comezinhas e alvo de críticas dissimuladas à aparente futilidade por quem faz de conta não ler o blog para o usar a seu bel-prazer. Posso talvez contar que a manhã ainda deu para ouvir rádio na cama. À sorte fomos parar à Antena 2 e à Rádio Observador. Ouvimos a história da ópera Carmen, do francês Georges Bizet, que rodou nos meus ouvidos vezes sem conta numa cassete do walkman escutada na biblioteca da faculdade enquanto lia livros que não interessavam para fazer cadeiras. Para dizer a verdade se alguma vez ouvi a história da ópera — o que é muito provável porque em adolescente seguia os programas de música clássica e óperas da RTP2 -, já havia perdido a memória dos pormenores do enredo trágico da cigana e o fim dramático do seu compositor incompreendido, criticado pelo realismo, sensualidade e final trágico da escandalosa peça de 1875. A crítica foi péssima como é costume face à circunstância do génio.


Depois tomámos chuveiro e fomos almoçar ao Mar à Vista na marginal de Gaia. Lulas grelhadas à pescador. Óptimas. Passeámos um pouquinho, conversámos com um brasileiro para lá, uma brasileira para cá. Condutores da Bolt. Podia contar as prosas andantes, que até têm interesse, mas hoje omito. À chegada comprámos graxa castanha no Continente já que reparei que trazíamos ambos sapatos castanhos muito precisados de renovação de cor.




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Que mais posso contar? Talvez que ontem à tarde ligou o meu afilhado por ter tido um sonho esquisito. Estivemos duas horas ao telefone e eu de papo cheio. Temas? Sonhos, aplicações para telemóveis e linguagem informática para as criar, vida caseira, cozinhados e disposição dos móveis em casa, saídas, feitios, livros de banda desenhada, por aí. Quando desligámos a minha mãe já lia Brás Cubas ao Nuno e acabei por ouvir a história da Marcela, o primeiro amor do protagonista do livro de Machado de Assis. Estava no +1 com outras distracções enquanto os ouvia na sala, mas não deixei de rir alto com a saída «Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis». Há coisas que não mudam. Por falar em gastos e futilidades na semana passada comprei um vestido com ramagens e esta sexta-feira outro também com ramagens nos mesmos tons. Continuo muito pragmática nas compras de vestuário, os critérios são: gostar das peças, serem práticas e não custarem caro. Trouxe também uma carteira. Tudo a preços módicos já que se trata de uma loja de produtos chineses, um pouco mais “arranjadinha” do que as lojas chinesas tradicionais. E fico por aqui.




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Obrigada por terem lido. Boa semana.