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24/04/2025

Tocar a terra

Sem vontade de relatar. Dizer apenas que enquanto percorria a A1 até Coimbra por duas vezes perdida nos pensamentos sobre escrita e mau-feitio dei de caras com placas da inscrição Miguel Torga. Oh, céus, quanta responsabilidade. Talvez por isso me reduza às fotografias da nossa terra sem a pretensão de julgar.


E vinha nisto ao tornar para o Interior e aproximar-me da Serra do Açor, a ruminar mais uma vez como gostaria de saber pintar ou compor música. Aí podia limitar-me a sentir a terra sem argumentar. Poderia pincelar o ondular dos montes de verdes escuros, pratas e azulados dos eucaliptos adultos e jovens, verdes tenros dos plátanos, áceres e salgueiros, verdes definidos das agulhas dos pinheiros, amarelos das giestas ou maias, lilases rasteiros da urze. E dar com as acácias e castanheiros. Poderia plantar colcheias nos regos penteados dos campos e leiras de castanhos ora leves como a poeira ora escuros de tão ricos. E ouvir o grugulejo dos cursos da água nas levadas, quedas e rios. Poderia pintar a óleo as nuances nos tons do xisto dos muros e casas e desenhar a carvão o traçado sinuoso da estrada e do balanço de quem a percorre levada a motor de combustão. 


Sem avaliar, argumentar e julgar. No mundo da actualidade e da cidade tudo é argumento, dito e contradito. O cansaço opinativo chega à consciência de quem ainda consegue tão só sentir. Comover-se com a paisagem sem teses e antíteses, provas e contraprovas. Só terra, vegetação, povoados e contemplação de quem se perde de amores pelo que é, sem querer saber do dever ser.


Se soubesse pintar ou compor tudo seria mais simples e verdadeiro. Maldição de quem escreve, a precisão de explicar. E ficar sempre aquém, mesmo que pense e sinta além.