Hoje não há escrita ritmada e inspirada. Não sabes tirar das gavetas de arquivo da mioleira as memórias acumuladas. Baralhas os nomes das árvores e a correspondência com as imagens vividas. Nunca soubeste os nomes de algumas, mas outras, céus, as folhas serviam até para sopas de água fria das brincadeiras de criança. De novo na serra querias identificar e as ajudas eram poucas: um comentário aqui outro acolá, uma miopia cerrada e fraca memória. Na Serra da Marofa e Vale do Côa reconheceste oliveiras em abundância, viste amendoeiras e esparsos sobreiros e azinheiras (seriam?), os costumeiros eucaliptos e pinheiros em menor número. Mais umas tantas árvores que tentas colar aos áceres ou salgueiros e outras que imaginas sejam freixos. E ainda estás para saber se identificarias um ulmeiro. Uma vida seria pouco para conhecer um pouco de botânica. Muitas vidas seriam pouco para saber um pouco do muito que há a descobrir, como o nome da flor branca que nasce em tufos rasteiros junto à urze.
Estás em terra de vigia. Fronteira natural, mas também da raia da alma humana. Portuguesa. Os castelos e fortificações multiplicam-se e alguns esforços de preservação e valorização das aldeias que os acolhem dignificam a memória dos antepassados que deram corpo e alma pela nação. Não tens facilidade em fixar nomes de batalhas e ilustres. Hoje do alto de Castelo Rodrigo pudeste avistar as planícies onde se deu a Batalha da Salgadela no âmbito da Guerra da Restauração. Logo te esquecerás do nome, da imagem - do rosto da história. Mas sobram as pedras encasteladas que asseguram a memória da nação.
Serão menos livres e poéticas do que os penedos, as pedras ou rochas graníticas da Serra da Estrela? As dos castelos estão mais explicadas, ou melhor, mais publicitada a sua história. A ciência dos penedos das serras, a geologia, tem menos argumento e debate. Outra vida seria pouco. Quantas vidas ficariam aquém? Infinitas. Tão sem fim quanto a ignorância. A tua assumida ignorância. Por isso te faz tanta confusão a presunção dos cheios de si. Por vezes ficas com receio de ser injusta ou precipitada no julgamento, sobretudo, no mundo online no qual a condenação pode ser mais leviana. Mas logo deparas ao vivo e a cores com iguais exemplares de carne e osso prontos a falar de cátedra ou a meter o bedelho onde não são chamados com conselhos supérfluos ou bitaites acéfalos. E percebes que nunca compreenderão o que ouvem ou lêem. Para alguns tudo é umbigo ou certeza, exacto ponto final e literal, num campo raso de conhecimento. Dos literatos aos simplórios, como o mundo seria diferente se percebessem o que ouvem e lêem antes de se habilitarem a opinar.
Acabas as linhas precedentes e matutas: melhor fora se lessem o post escrito de ontem. Este ficou verdadeiramente aquém.