Hoje a pintura eleita para este diário de fim-de-semana é a vulgarmente conhecida por A Duquesa Feia, do flamengo Quinten Matsys. O autor do post fala do retrato de 1513 de uma velha mulher deformada vestida fora de moda para a época — daí o realce do toucado em forma de chifre. Apesar da velhice e fealdade a personagem, que parece um homem, transmite optimismo e desejo romântico representado no botão de rosa que segura na mão. O símbolo do amor - a rosa - está fechado, o que significa amor não correspondido. Ensina o autor que o quadro foi influenciado pela obra Elogio da Loucura de Erasmo, na qual criticava pessoas mais velhas que ainda se comportavam como coquetes não conseguindo largar o espelho, chegando a exibir os seios murchos e repulsivos. Como usual a história que deu azo a estas linhas está afixada na Reading List. E hoje é tudo quanto deixo acerca de leituras no Medium. Esta semana pouco mais li por aqui, tirando um conto de um autor japonês que acompanho. Digo sempre isto, mas a verdade é que gostava de ler mais por cá; a ver vamos se é para a semana que reponho o ritmo das leituras que por aqui fiz nos últimos meses de 2024.
O dia-a-dia de trabalho tem sido bastante mecanizado atenta a sonolência. Estou a deitar-me em regra cedo, porque quebro a seguir ao jantar, mas acabo por acordar de madrugada e não descansar o suficiente. Tirando uma noite, senti sempre que fiquei em défice de sono. Sonho bastante mas não tenho perdido tempo a rever e pensar os sonhos ao acordar pelo que não os chego a interpretar. Perdem-se. Adiantei mais um pequeno capítulo nas escritas fora de antena. Nada de muito especial. Lembro-me apenas que no dia cheguei à conclusão que não me vou preocupar minimamente com a “cólidade”. É escrever e andar nos momentos em que arranjar disponibilidade. Afinal essa gente que vejo autopromover-se e fazer muito finca-pé na “cólidade” do trabalho, escrita, cozinha, viagens, maternidade, amizade, etc. não passa de flop de inteligência, talento e amor com audiência pelas mesmas razões das Casas dos Segredos. Neste quadro deve ser bom sinal não ter “cólidade” e seguir caminho sem intrujice pacóvia. Sem ficcionar profundidade da treta em linguagem e ideias rebuscadas, intriga e contradições forçadas, sofrimento fajuto, drama e perversidade para satisfazer a avidez traiçoeira e os instintos primários de vermes e agressores latentes. Insaciáveis até reduzirem à mediocridade total o criado, editado e publicado por mimetismo. Mentira é verdade, guerra é paz, lixo é literatura. Verdade é mentira, paz é guerra, literatura é lixo.
Aproveito para republicar um trecho das Comezinhas de 4 de Julho de 2023: «Num aparte a propósito termino só a comentar em jeito de desabafo cansado que há quem tente encontrar por detrás de quem vive com simplicidade grandes explicações e grande profundidade escondida. Há quem espere sempre um além do visível e singelo por o achar poucochinho apesar de pitoresco: na melhor das hipóteses atraente, na pior permeável a manipulação. Há quem não compreenda nada de importante da vida por tanto procurar interesse maior. Há quem seja frívolo e leviano por procurar valor onde ele não existe. Há quem não veja além da aparência. Há quem não saiba ver a profundidade senão no rendilhado argumentativo e sofisticado da ilusão. Hoje como há 130 anos, como há mais de 2000.» Mas, vamos lá deixar para trás as críticas e comparações — seguir esse conselho dos gurus da psicologia e do aprimoramento das competências sociais e emocionais.
Ainda assim e por falar em ideias e linguagem rebuscada. Precisamos ter cuidado. Ontem ouvi o nosso primeiro-ministro “focalizar”. Deixou de focar os problemas nacionais e isso é preocupante. Também me aconteceu “complexificar” no tal post de 4 de Julho de 2023. Reparei no próprio dia e disso dei nota. Teria sido muito mais fácil e recto escrever complicar. Mas quando se consome todos os dias conteúdos com linguagem adulterada perde-se o pé.
Hoje mais cedo o Nuno teve a resposta ao pedido que queria fizesse à directora da casa de acolhimento. Pediu-me que perguntasse se o M. gosta das vindas cá a casa. Não foi preciso. Esta manhã ao entrar disse ao pequeno que ia estar duas semanas sem vir. A segunda porque o Nuno e eu estaremos fora de casa, a primeira por a directora comunicar que o M. não podia vir. Diz-me ele muito espantado: porquê? Deves ter actividades, é Páscoa — respondi. Réplica indignada: mas não posso vir para aqui, em vez de ir às actividades? Lá brinquei dizendo que dava a chave de casa à H. e eles vinham para cá, a H. acrescentou que duas semanas passam num instante e ele ficou mais sossegado. Mas a reacção espontânea foi a melhor resposta à pergunta do Nuno e é resultado do jeito especial que este homem tem em lidar com miúdos e graúdos. Paciência e tempo para ouvir. Ouvir mesmo de coração e mente aberta, prestando atenção no que dizem. Dando espaço. Pondo os outros à vontade. Tratando-os como iguais e merecedores de respeito. O homem que recebe várias chamadas por dia de família e amigos tantas vezes só para desabafarem. E eu nisto, como fico? Orgulhosa.

Amanhã, à vinda da piscina municipal, tenciono arranjar queijo de ovelha, azeitonas retalhadas e temperadas, presunto e pão de abóbora e noz e uma garrafa de vinho maduro tinto para fazermos um lanche ajantarado. Já tenho o caldo verde e uma torta de laranja comprada hoje — a que já roubámos duas fatias. Talvez peça ao Nuno para partir uma manga, calha bem. Será ao fim da tarde para fazer mais comprida a noite de Domingo. E na segunda-feira recomeçará o rame-rame. Hoje trouxe uma cuvete de mexilhões. Ainda não sei como os vou fazer. Acabo de escrever enquanto oiço Silêncio do Pedro Abrunhosa; é o Nuno que lá dentro está a ouvir um concerto deste músico.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.