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17/04/2025

Linguagem

(corrigido)


Cresci a contar com os remoques familiares à pretensão. Tudo quanto na linguagem fosse pires, a armar ao pingarelho era motivo de chacota. Recordo bem a referência antiga aos tiques de professora de liceu. Era uma referência jocosa às pessoas que empregavam termos caros nas conversas banais. Isto ao mesmo tempo que se valorizava o vasto leque de vocabulário em cronistas e escritores.



Volvidas décadas pondero o ponto de equilíbrio nesta matéria. Reparo na pobre linguagem oral e escrita, onde são aceites todos os termos de maré – e as marés da linguagem hoje podem ser mensais ou semanais – de tal modo que se num qualquer dia nos dedicarmos a ler duas dezenas de crónicas de autores diferentes, topamos vocábulos repetidos à exaustão, como se decalcados de uns textos para outros.


Não sei se a ideia presente de que se deve estar em cima do acontecimento, o medo de parecer alheado da realidade leva quem escreve à necessidade de encosto na maioria. Sinto que é uma coisa inconsciente e isso, para ser franca, ainda é mais assustador. Onde andará a consciência e o cunho de cada um? Não só os temas têm que ser os do momento, como os termos, as expressões, as interjeições. Tudo comove todos por igual. Ou melhor, comove por igual as tribos. As pequenas divergências que existem são de facção, se bem que os termos empregues até são os mesmos, só que devidamente inquinados em função do ponto de vista do bando.


Habituada a ser chamada à atenção por uns por usar termos antigos, e por outros por usar termos aperaltados, pergunto-me se todos temos de escrever como se fossemos um misto de psicólogo e jornalista a redigir a acta do condomínio.


*


[Publicado aqui nas Comezinhas a 28 de Junho de 2021. A realidade descrita continua a impressionar. Observando. É difícil fugir do decalque e da sensaboria da linguagem; quando há tentativas de fazer diferente, não raro sai um texto presumido. E quem foge destes triunfantes padrões insípidos ou presunçosos é estranhado e rechaçado.]