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21/04/2025

Moralidades à quinta-feira

Era suposto ter preparado o post da série “O que é esta segunda-feira”, mas saiu o das “Moralidades à quinta-feira”. Por isso esta semana troco os dias. Na quinta-feira se não chover e para aí estiver virada sairá um textinho acerca de uma palavra. Hoje ataco já com moralismo. Ia lá conter-me. As Comezinhas não têm cura, saem à dona.


Em miúda no liceu uma das gracinhas que dizíamos entre amigos aos que fossem calaceiros era a de se limitarem a dar apoio moral. Aquele que não fazia a ponta de um corno (desculpem a rudeza dos termos, mas apetece) quando os outros tratavam de resolver o problema de um ou vários de nós, aquele que de braços cruzados ia dando palpites era o que se limitava a dar apoio moral. Se por um lado servia como espécie de insulto amigo para fazer ver ao outro que era imprestável, por outro pressupunha o reconhecimento de que ao menos o preguiçoso tinha a qualidade de animar os companheiros.


Vem isto a propósito do paradoxo (tentei fugir à palavra, mas vou voltar a usar agora que se disseminou de novo) de em muitas circunstâncias serem os mais insensíveis e aqueles que nem sequer compreendem o sofrimento alheio, os que acabam pelo feitio de gostarem de ser pivôs e fazer as coisas acontecerem, por serem mais disciplinados e obedientes aos bons princípios ou simplesmente porque o contexto a isso os obriga, os que acabam, dizia, por ajudar a resolver mais problemas e dificuldades alheias. Quantas pessoas altamente desagradáveis, cruas e autoritárias ou mesmo cínicas são ao mesmo tempo as que cuidam dos outros? As que fazem o que mais ninguém parece querer fazer? Quantas vezes os bons samaritanos são uns inúteis humanitários apenas de língua, limitando-se ao apoio moral acima referido. Por esta razão às vezes é preciso estar atento à realidade para compreender quem mexe no mundo para aliviar o fardo aos outros – e aqui, há que dizer, a Igreja com todos os defeitos que se lhe reconhecem, tem um papel importante. Na vida pouco é linear: os muito justos e até lúcidos na oratória e crítica não têm frequentemente práticas condizentes com todo o seu criticismo.


Isto não invalida a afirmação de que o apoio moral pode contar e ser importante. Há quem seja muito desajeitado ao lidar com os outros na actividade prática e ainda assim pela presença e palavra seja capaz de dar uma mão de compreensão e ânimo a quem precisa.


Porém há nuances sentidas por quem sente mais do que enuncia. Foi com uma sensação agridoce que ouvi aquela imagem do só é admissível olhar de cima para baixo se for para ajudar a levantar. Quem lê as Comezinhas de início sabe que a crítica a quem “olha de cima da burra” é uma das mais importantes ideias deste blogue – em que faço mais finca-pé. Por isso não pude deixar de ficar contente com a menção do Papa ao defeito grave da arrogância. Mas fico com algum receio da forma como as aquelas palavras sejam aglutinadas no pensamento dos visados, ainda que proferidas com toda a certeza na melhor das intenções. Por duas razões: primeiro porque há muita gente que precisa tanto de olhar de cima para se sentir alguém que faz da ajuda aos outros uma oportunidade de afirmação pessoal e do seu quadro de valores morais, segundo por esta ideia poder comportar uma relação de dependência que se eterniza (às vezes por séculos). Como explicar? O Papa Francisco deu um pequeno passo, mas na verdade quem ajuda também não tem de estar a olhar de cima para baixo muito menos mostrar e envaidecer-se da sua acção. Se repararem os que ajudam por mais santos sejam (de facto) ou pareçam têm contrapartidas (e esqueçamos a tretas fofinhas comuns ao mundo do espectáculo do “são muito gratificantes os sorrisos dos outros, a gratidão, eu que ajudei é que sou grata”, essas lengas-lengas todas) como emprego ou ocupação sem remuneração pecuniária, salários, vida social rica, entretenimento. Enfim, os “pobrezinhos” enchem de sentido a vida dos “caridosos” e de muito bem mais palpável, o que pode fazer eternizar a relação de dependência em vez de criar uma verdadeira mola de emancipação e independência. Este verdadeiro erguer só acontece quando quem está no chão se levanta e evolui e não vejo razão especial para olhar de cima quem está ou esteve no chão. Esse olhar está mesmo reservado a Deus, e não a nós comuns mortais. A nenhum de nós.  


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[Publicado aqui nas Comezinhas a 7 de Agosto de 2023. Não sou dada a obituários nem a ondas de comoção, mas caí na tentação de relembrar este post de 2023.]