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10/04/2025

Uma manhã como as outras

Depois de anteontem ter dormido nove horas, uma raridade da qual estava precisada, hoje voltei às poucas horas de sono. Às seis e picos acordei e senti o Ritz sair da sala para receber a dose habitual de mimo matinal. Vem para o quarto e enfia-se na cama, debaixo da minha asa. Acha-se pássaro e bem vistas as cores só lhe falta o azul para fazer pandã com a pega. Fica ali enroscado a ronronar enquanto vou festinhando o mimalho. A coisa termina com uma mordidela, sinal que é o momento de uma pequena luta. Se bem que o ringue ideal para este tipo de tropelias e guerras seja o parapeito da janela do segundo quarto para onde salta depois de umas corridas pela casa e de uns saltos às pernas como se me exigisse um combate à janela. Descarado.


Entretanto acorda o Nuno e abro o estore perante as miadelas insistentes do bichano. Hoje as pegas não deram o ar da sua graça, mas é comum quando abro a janela vê-las nos ramos da árvore do vizinho ou já em vôo, julgo que o barulho do estore assusta. O gato quer arejo e erva. E reforço da ração na tigela – que o Nuno fornece a meio da madrugada, acordado pelo gato com fomes a desoras. De manhã tem de esperar que tomemos a medicação e vá buscar os dois cafés e o baralho de tarot. Altura em que abro a porta da varanda para gáudio do príncipe felpudo do Zaire e para regalo das nossas narinas por vir o cheiro às flores do jardim do vizinho. Hoje foi dia de regar as nossas plantas, o que resulta sempre no quarto patinhado de gato afoito.


Como sempre tiro pelo menos quatro cartas, duas para mim duas para o Nuno. As perguntas? Como vai correr o dia para mim e como vai correr o dia em termos de escritas? Como vai correr o dia para o Nuno e como vai correr o dia para o Nuno em termos de computadores e música? Hoje saiu-me o quatro de paus para o geral e o valete de copas para a escrita. Para o Nuno a rainha de ouros para o geral e o valete de espadas para os computadores e música. Tirei uma extra, saiu o três de ouros. Tudo pela positiva. Há dias abençoados. Na verdade quando saem cartas negativas também não faz mal nenhum, porque insisto em tirar outras até a mensagem ser positiva. Sou uma taróloga de truz, de uma honestidade a toda a prova. Encaro as bruxarias com toda a seriedade.


Entretanto o Nuno tenta ligar a rádio Comercial, sob meu protesto. Bem pode esperar que eu vá para o chuveiro. Mais tarde vai ligar a Observador. Ah, é verdade, antes de levantar, enquanto mimava o Ritz, li as parangonas do Jornal de Notícias. Continuo contente com a escolha do jornal dos últimos meses. Faço muito bem em desanuviar da verborreia opinativa do Observador. Passeei-me entre as dez primeiras páginas das Últimas do JN – até começar a encontrar notícias que já tinha lido ontem. O que mais me chamou a atenção foi a novidade dos avanços tecnológicos de Singapura e Estados Unidos quanto a chips usados para a Inteligência Artificial. Estão a desenvolver um chip de fotões em vez de electrões. Os chips fotónicos são processadores que funcionam à base da luz, da velocidade luz. Em conclusão de leiga e naba nestas matérias, isto quer dizer que a resposta da IA vai ser ainda mais célere.


Outra notícia que me arrebitou as orelhas, e os pêlos que já não tenho, foi a de que a Administração Trump - na senda deste jogo de póquer de tresloucados que andam a jogar -, tenciona acabar com as regras bancárias que impõem a existência e manutenção de fundos próprios nos bancos e financeiras para cumprirem obrigações e absorverem perdas inesperadas. Estas regras impostas após crise de 2008 são as que dão garantia de estabilidade ao sector bancário. Quem conhece um pouco deste mundo sabe da importância das provisões para não voltarmos a viver como acrobatas ou trapezistas de circo. Mas o governo norte-americano gosta do risco inconsequente e senta-se à mesa de póquer apostando as economias do mundo inteiro como um adolescente alcoolizado.


Às nove horas saí de casa e fiz como habitual o percurso para o trabalho a pé. Pelo caminho parei no supermercado a comprar o pão para o meu pequeno-almoço. Ultrapassei o trânsito parado. Foi dia de toque com tudo embarrilado. Privilégios de quem vive a menos de dois quilómetros da empresa onde trabalha. Cheguei às nove e meia em ponto. Coisa que só aprendi a fazer na meia-idade. Toda a vida vivi fora de horas. Mea culpa.