
*
O vício dos dias de hoje, atenta a voragem informativa, é elaborar sobre compartimentos estanques. Seja em termos de espaço seja de tempo. Socorrendo-se de ideias feitas ou conhecimento válido, discorre-se sobre o que se passa em cada dia, como se o passado se tivesse desvanecido. Escreve-se sobre o que se passa em Portugal, como se a realidade norte-americana, britânica, australiana, angolana, nada tivessem a ver com isso e com o estado de sítio deste mundo globalizado. Termo tão na moda durante anos e varrido dos jornais e espaços virtuais. Curiosamente por acção da Covid, a mais globalizada de todas matérias.
A título de exemplo pergunto que ideias válidas e consequentes se poderão retirar da reacção aos chavões racistas e xenófobos do Chega, sem perceber que por mais que o Antifas norte-americano tenha origem funda naquele grande e novo país de imigrantes com oportunidades desiguais, tão distantes das velhas raízes do pequeno país definhado, ruína de antigo e envergonhado império colonizador feito terra de emigrantes, todo o moderno ruído mediático e virtual é instantâneo, global e imparável?
Em termos mais gerais, há perguntas às quais talvez ainda seja cedo responder. Como se mescla na História a nova realidade feita de destempero e da mexerufada de ódios recentes - com trinta ou quarenta anos -, e os rancores antigos que há muito se julgavam expiados? Como se abstrai do que continua a ser a luta de rebelião e resistência pelo quinhão de poder? Como é possível negar nas bandeiras empunhadas a contradição e absurdo nuns casos, mas também a necessidade e justeza noutros? Como se cultiva, a pretexto de grandes declarações de amor à democracia e através de meios digitais, o atavismo obsoleto? O que fez o mundo ocioso do Ocidente emergir do falso unanimismo das últimas décadas e levantar-se do sofá para discutir com o vizinho do lado? Qual a razão para cada um se lembrar agora da sua quota de poder?
Mas há outras questões bem evidentes que interessam a quem se preocupe com o efeito borboleta. Se quisermos tentar perceber o que se passa e pode vir a passar nas próximas semanas ou meses, teremos que assentar na ideia de que a opinião pública ocidental, educada há décadas no facilitismo e na falta de juízo crítico, repele ou cede tão ou mais levianamente ao apelo ou slogan dos longínquos mentores das causas imediatas que vê bradar nos jornais das televisões e redes sociais, como aos sentimentos e razões do seu pequeno território de interesses e influência. Os órgãos de informação não têm autonomia financeira, nem independência face à voragem dos acontecimentos, nem arcaboiço estrutural de conhecimento. Os estados estão desprovidos de autoridade na cúpula, sendo geridos como empresas que concorrem ao melhor lugar para trabalhar e estão subjugadas aos grandes grupos de interesse económico. Da autoridade militar estranhamente pouco se fala.
A ver vamos.