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23/01/2021

Costura

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O tempo lá fora fere e há razões bem mais sérias para achar que o mundo vai acabar do que aquelas que as linhas seguintes expressam. Pousaste o livro a pensar que o vais terminar amanhã e rendeu mais de vinte dias intercalado com contos de outras latitudes - lês devagarinho como o caracol. Estás no sofá a dar colo ao computador ao som da cada dia mais perigosa smooth e a escrever sobre o sucedido há três horas. Deste por ti de agulha e linha na mão, pelo que tiveste a confirmação que é bem provável que o planeta esteja a ruir como um baralho de cartas. Já não te chegava acordar por volta das oito, antes do despertador, de todas as rotinas que paulatinamente se têm vindo a impôr à natureza desalinhada que julgavas inalterável, e deste contigo a estender camisolas de lã, lavadas em programa pensado para não as estragar, em cruzetas (ou cabides para os mais evoluídos) e logo depois a coser uma peça de roupa. Claro que ficas a pensar: afinal, quem és tu? Seria para isto que ao longo dos primeiros vinte anos a tua mãe e a Eca te ofereceram quatro ou cinco conjuntos de costura? Alguns nem sabes onde andam. O dado pela tua mãe era de madeira, tinha asa e as tampas dos dois compartimentos deslizavam. O encanto, achaste sempre, estava no próprio mecanismo, nem sequer te lembras do conteúdo. Os da Eca eram mais miúdos. Kit de viagem; a graça estava em serem pequeninos e coloridos, pareciam de brincar e assim os tomaste. Fazia sentido: coser só mesmo por brincadeira. Os vários tubos de linha desses conjuntos estão na maioria virgens; salvo um pontarelo mal feito ali outro acolá, a coisa deve andar na média de trinta centímetros de linha gastos ao ano. Nem sabes bem se foste tu que reuniste os tubos, agulhas, fita métrica, alfinetes, dedal e dispersos na lata de xadrez vermelho e verde que a Eca te deu e persistes em preservar quando há muito fizeste desaparecer a maioria dos bibelots


Lembras-te da caixa de costura da tua avó. De couro preto estava sempre cheia, de tal forma que a tampa estava rasgada. O mais difícil de acomodar era o ovo de madeira. Da lata também preta estampada com flores e um furo na tampa. Recordas-te da dobadoura para ceder o fio aos novelos de lã. Quando não havia dobadoura, os teus braços ou de algum outro neto podiam bem ajudar na tarefa. Das agulhas de tricot, da agulha de crochet e da linha de algodão branco (esqueceste-te do número: seria a 8 ½?) e dos anos a fio a fazer buracos, como dizia o avô a contabilizar o número de orifícios que possuiriam cada uma das vinte e duas (estiveste a contá-las agora) cortinas das onze janelas do piso do meio da casa. No todo era um número astronómico de buracos. E das duas caixas de costura vermelhas de plástico com divisórias da tua mãe. Do som da preciosa tesoura que roubavas para cortar papel. O som de tesoura afinada é mais eloquente do que a maioria das palavras. Do marcador de tecido e do papel vegetal para tirar os moldes da Burda. Do pedal da singer e do móvel que a albergava, ido e vindo de Angola. Da tua mãe sentada a fazer peças de roupa. E da F., costureira de profissão, sentada a trabalhar: assim dá gosto, fazer a peça inteira, não é como na fábrica onde só se faz bolsos ou golas.


Avó, mãe e a sua grande falta de paciência para quem não tem jeito para nada. A lição é simples: o que é preciso ser feito faz-se e isso não faz de nós menos gente. A avó entremeava Agatha Christie e crochet, dava explicações de francês e preparava canelones ou fazia doce de maçãs podres, como soube enquanto enfermeira tratar de feridos na guerra civil de Espanha. A mãe tendia a massa para os pastéis de massa tenra com o mesmo método com que mexia e encorpava os ovos moles no ponto para o molotof e cruzava dados demográficos de poveiros mortos há trezentos anos, como soube enquanto professora ensinar angolanos das sanzalas a ler, escrever e contar. Agora passa da história de Israel para um romance de cavalaria ou o sudoku, como desentope canos da banca.


É a lição no feminino. E quantas lições há por essas casas em Portugal inteiro. Aprendeste pouco. Vale teres visto e ouvido mãe e avó. E Eca, um talento não para as costuras, mas para a bricolage e para a verdade. A pura da crua da verdade. O céu existe? Sim, sim: o céu dos ratos é a barriga dos gatos. Ainda hoje estás para perceber por que carga de água a tua mãe teve a ideia peregrina de pôr a Eca a dar-te catequese para a primeira comunhão. Só podia ser uma piada, a melhor das ironias vinda de quem diz não ter sentido de humor.