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O ritmo dos acontecidos no mundo lá fora e no espírito aí dentro é frenético. Têm sido meses de excepção, anos de espertina. Há momentos em que dá ideia teres acordado de um longo sono, de um longo descanso. Não te pesa o que perdeste enquanto adormecida, por saberes o quanto precisavas do afastamento, da redoma que permitisse voltares a acreditar. É curioso que tenhas saído do tronco onde hibernaste pouco antes do mundo virar do avesso. De repente ou paulatinamente, quando tudo se tornou mais frágil, começaram as aproximações dos que te são mais importantes. Nas vésperas do mundo virar do avesso, era a distância que marcava presença. Não te dedicavam tempo, nem tu a eles. Era espaço frio e sentido. E de repente ou paulatinamente começaram a abeirar-se como se o mundo pudesse acabar e quisessem dizer que ainda lhes vales qualquer coisa. E tu a eles. E chegaram também novos amigos e conhecidos. E dás por ti a sorrir e a lembrar do murro no estômago que levaste quando um dia, talvez há treze ou catorze anos, tomaste consciência que em várias semanas, e sem estares ligada a redes sociais ou quejantes, tinhas recebido uma única chamada. É certo que acabaras de trocar de telefone pela terceira vez, o que não ajuda. Mas eras tu e o teu deserto. O tal que se prolongou por alguns anos. Tu, a que estava habituada desde sempre à turba de amigos e conhecidos. Às saídas, aos cafés, às conversas, aos sorrisos, às piadas, às gargalhadas, às cumplicidades. Na Rotunda da Boavista com o telemóvel na mão e ao ver uma chamada única, perguntavas: onde estão todos? Para onde foram todos? E mais do que tudo, para onde tinhas ido tu, que não querias sair do tronco onde hibernaras.
Ontem tropeçaste num amigo e deste convosco em francos desabafos. À cabeça a constatação de que a fragilidade trazida pela Covid veio mexer com os afectos e ânimos terrenos. De alma exposta, falou-te do coração e tu radiante percebeste que já encontrou a ponta da meada do futuro risonho e mimado que já merecia; estavas certa em dizer que, apesar de tanto duvidar, era esse o seu destino. Também tu abriste a alma e o coração no teu velho costume de te sentires mais confortável e entendida aos olhos e ouvidos dos amigos masculinos. E sem outro conselho que não fosse a divertida proposta de mudares de vida e abrires uma linha de tarot ou de qualquer outra bruxaria divinatória, cada um foi à sua vida de alma mais leve. Supões que seja para isso que servem os amigos.
Resta-te a pergunta: e depois, varrida a fragilidade e pousada a imunidade, que vai ser feito dos nossos agora mexidos corações? E da atenção e cumplicidade? E da amizade?