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24/01/2021

Dois votos

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Lá fomos. Todas as eleições há uma novidade. Nesta calhou votarmos em locais diferentes. Não reclamo; suponho que seja para não haver concentração de eleitores. O Nuno no Carolina Michaëlis e eu no Rodrigues de Freitas. Escrevo no masculino por ainda não me ter habituado a dizer escola secundária e não liceu, apesar de já no meu tempo assim se designarem. Arrancámos a pé para a primeira paragem. Preparadíssimos: máscara, gel, cartão do cidadão, certificado multiusos e caneta. Desta vez esperava-nos uma régua ou matriz de voto em braille. Novidade introduzida já em eleição anterior, mas que por alguma razão não nos tinha sido apresentada.


Sucede que o Nuno perdeu a visão aos 40 anos e ao mesmo tempo teve como brinde amnésia traumática, pelo que quando era suposto, nos anos imediatamente a seguir, não aprendeu a linguagem que a burocracia dita ser universal para quem não vê. Talvez também não tenha aprendido braille por falta de vontade, coisa que para o pianista cá de casa, cuja vida profissional sempre passou pela tecnologia, é um arcaísmo dispensável. Gostava que ele soubesse, mas não discuto: vejo-o tocar e compor e editar música no computador, guardar e organizar centenas de milhar (por favor poupem-me à discussão do português correcto; hoje mereço descanso) de ficheiros de música, assistir a filmes, ouvir audiobooks, conversar online com pessoas no mundo inteiro e sei que não foi o braille que abriu todas estas janelas. Mas hoje tivemos direito à régua de braille. Claro que foi estranho para mim, que nunca tinha tocado numa coisa daquelas e gerou-se uma pequena confusão. Pareceu-me uma relíquia oitocentista e tudo quanto queríamos era que eu pudesse fazer a cruzinha no quadrado do candidato em quem o Nuno quis votar. E assim foi. Aos teóricos do simplex da vida só quero dizer que a conversa do incentivo à autonomia e da prevenção da fraude dá-me sobretudo e cada vez mais sono; um tédio.


Ainda estou para perceber como é que nos dias de hoje, com a disponibilidade e acessibilidade tecnológica existente, e ainda por cima num dia em que morreram 275 pessoas de Covid, não há voto electrónico.  


Seguimos para a segunda paragem. E lá fui votar nulo, por todas e mais esta razão. Já chovia bem, voltámos para casa de Uber. Fizemos a nossa parte, tomara o próximo inquilino de Belém faça a dele.