Pesquisar neste blogue

07/01/2021

Episódios de Janeiro 2021 - As alcofas e a rua

Capturar.PNG


*


É muito difícil poisar numa ideia justa face aos últimos acontecimentos, e não só os da banda de lá do Atlântico, como dos de cá. As ilações fáceis começaram a ser tiradas da cartola. Do lado de lá, diz-se que as autoridades são menos actuantes face a desordeiros de um determinado tipo do que doutro. Do lado de cá, quase se chama assassino a quem resolveu abraçar os pais no Natal, alcunha-se de asno o populista e no alto da soberba e cegueira não se percebe o que está a passar.


Os que mais contribuíram para escalada de revolta dos desordeiros do tipo detestável (há os desordeiros do tipo justificável) são os mesmos que puxam dos galões da democracia e tolerância como se algum dia tivessem sabido o que isso era. Vivem e viveram a desprezar e injuriar aqueles a que chamam burros e ignorantes e estranham levar agora com a sua patética fúria. A importância que têm na comunidade, o seu rendimento, o prato e o copo que encheram diariamente foi servido, não como julgam à custa do trabalho e esforço digno, mas à custa do silêncio dos agora desordeiros dos dois tipos, e era em silêncio que os desejavam para poderem continuar repimpados das suas alcofas principescas. Até há pouco, o sossego dos desordeiros do tipo defensável foi mantido com promessas patetas e ocas de compreensão, o dos segundos com desprezo. À resposta vinda da rua, a que assistem no último ano dos seus aposentos calafetados, respondem com histórias da carochinha engolidas pelo resto da massa amorfa da população, que come a democracia, como comeria uma ditadura fascista ou comunista. O que é preciso é o cimento da unidade em torno de um inimigo comum: o vírus, os assassinos que visitam os pais no Natal, o populista que aproveita o debate e faz a primeira entrevista digna desse nome ao actual Presidente da República, com perguntas que muitos dos portugueses comuns queriam fazer aos políticos que nos desgovernam há décadas e jamais seriam feitas por um jornalista da nossa praça.


Custa? Dói o populismo? Dói a ignorância? Dói a intolerância? Tudo isto esteve e está latente em parte substancial da população portuguesa, que assim se via corroída por dentro, sem que alguém algum dia tivesse coragem de a curar. É a conversa de tasco, caros príncipes dos megafones requintados e exclusivos de elite. A conversa de tasco entrou-vos por casa adentro, à hora de jantar. Que chatice. Interrompeu-vos os deleites de repastos e colóquios tão soberbos. Será hora de perceberem que os ditos moderados representados em partidos de poder não podem continuar a ignorar a população como fizeram nas últimas décadas. E compreender que quem já o começou a fazer, está no caminho certo. Não é a chamar burro ao populista que se evita a tragédia da vitória do populismo. Não é a chamar asnos a parte substancial da população que se evita a tragédia da ditadura. É a perceber que razões válidas existem na histeria do descontentamento. É trazê-las quando justas para os programas dos partidos moderados e levá-las a sério. Porque a História está farta de mostrar que não se deve ignorar a fúria das populações para dar guarida a alcofas de príncipes alheados da realidade.