Donald Trump e a força das coisas, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.
[...] «Na América – como em Portugal e mesmo na generalidade dos países europeus – a reacção popular às grandes linhas da globalização político-económica, ao ideário da correcção política e ao apoderamento da opinião e do sistema por “vanguardas” interessadas, é, por enquanto, só isso: essencialmente reactiva. É a antítese, a negação de um discurso que se quer impor como discurso único. E nesse discurso coincidem os bilionários da Big Tech, grande parte dos académicos e dos comentadores, quase todos os noticiaristas (agora autopromovidos a pensadores políticos) e os activistas Antifas e seus equivalentes europeus. Uns, porque ganham muito dinheiro, mais ainda que o que já ganhavam; outros porque impõem as suas ideias sobre o homem e o Estado ou porque vão com a maré; outros ainda porque passam por heróis, a derrubar ou a vandalizar estátuas de “fascistas”, como Abraham Lincoln ou como o Padre António Vieira. O apetite do lucro de uns junta-se ao zelotismo utópico ou ao instinto de saque de outros. E à ignorância e ao simplismo populismo de quase todos.»[...]
[...]«Também a Trump, que derrotou os tradicionais conservadores do Partido Republicano – de Jeb Bush e Marco Rubio a Ted Cruz – e se apoderou do lugar e da agenda deles, lhe faltou sempre aquele substrato de convicções e de princípios profundos, que vem das ideias e das concepções de vida de longa-duração. Talvez por isso, e por temperamento e circunstância, não tenha percebido que, a partir de um certo momento, não valia a pena persistir, mesmo com razão, numa batalha que a força das coisas já tornara perdida. A partir do resultado consagrado pelos poderes deste mundo na eleição presidencial o que passava a estar em jogo era conservar a maioria no Senado.
No momento em que o Presidente se afastasse, deixando o que houvesse a decidir aos tribunais, a coligação anti-Trump que elegeu Biden desmobilizava. Com a sua insistência, usando o peso da popularidade entre o eleitorado republicano, e com o seu pouco ou nulo empenho na campanha senatorial da Geórgia, os Republicanos acabaram por perder dois senadores, perdendo assim a maioria no Senado.
O Partido Republicano que Trump ajudou a construir, um partido mais popular, mais baixa classe média e trabalhadora, mais chegado aos latinos e aos negros, era um bloco de 74 milhões de eleitores, face a uma coligação negativa que ia dos megabilionários de Silicon Valley – e de outros vales – aos Antifas, passando, claro, pelos novos “cabeças de ovo” da Academia e dos media, habituados, como bons puritanos, a justificar os próprios excessos pela bondade das suas causas e a demonizar e perseguir o inimigo, as suas causas e os seus excessos. A invasão do Capitólio por adeptos de Trump serviu-lhes na perfeição para confirmar e justificar a estratégia de Redutio ad Hitlerum que há muito prosseguiam.»[...]