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Depois de um fim-de-semana alargado e atípico em que preparei quatro máquinas de roupa para aproveitar o tal sol de Janeiro que as Calendas não anteviram, eis que dou por mim a fazer, pela segunda vez na vida, o que me habituei a ver em criança: uma barrela de perborato. Nos tempos em que se usavam guardanapos de pano – coisa que aboli em casa por não ter vocação para escrava -, era costume usar este químico para voltar a dar alguma brancura aos guardanapos e toalhas manchadas de vinho e outros vestígios dos repastos. A solução é simples: deita-se uma porção do pó milagroso, junta-se água muito quente, mexe-se e, em seguida, vá de colocar o tecido tingido dentro da poção mágica com ajuda de uma colher ou garfo de pau, tapando-se no fim para o cozinhado sair perfeito. À falta de recipientes, uso a caixa da roupa suja para o efeito. No caso de hoje, não se trata de toalhas e guardanapos – até porque nos últimos anos optei pelos individuais e caminhos, salvo pontualmente nos dias festivos -, mas das cortinas da cozinha que apanharam humidade e manchas das plantas que as roçavam.
Extraterrestre como sempre fui, não tenho máquina de secar, prefiro vassoura ao aspirador e às mopas com paninhos recarregáveis, não deixo usar produtos químicos nos móveis de madeira e uso detergente em pó em vez de pastilhas. E cada vez que deito o pó na gaveta, penso: a minha mãe usa cápsulas há trinta anos, a minha avó já usava pastilhas, onde raio fui eu buscar estas manias? Aos sábados antes do almoço fazemos um mini arrumo e limpeza da casa; a mim compete-me exactamente arrumar e varrer. Pego na vassoura e são cinco ou dez minutos de puro prazer. Só embirro pelo facto da dona L. à segunda-feira usar na minha vassoura favorita – de pêlo macio – na varanda. É das poucas embirrações que tenho com a pessoa educada e delicada que me deixa feliz e contente todas as tardes de segunda-feira, ao brindar-me com uma casa a cheirar a lavado e a roupa passada.
Teria sido mais chique dizer a L., com aquela superioridade de quem vê o mundo lá de cima, mas desde criança me senti tolhida de vergonha por essas faltas de respeito. Nada que não tenha troco na justa medida: no local de trabalho, tratando eu a pessoa que limpa o escritório por dona F., sou mimoseada com um: Isabel, posso limpar a sala? Pois muito bem, que vivemos num país muito democrático onde a televisão ensinou os portugueses a tratarem todos pelo nome, quando não por tu. E o meu tolhimento é tão arcaico e desajustado quanto a educação. Isto são, claro, devaneios de quem conheceu um mundo antigo e lendário onde ainda não havia doutoras, mas um tríplice catálogo de senhoras, donas e senhoras donas, em função não só do nascimento, como da ocupação ou função que tinham na sociedade. E a este propósito também achei particular graça quando uma enérgica nova-rica, acabada de educar em faculdade de gente favorecida, me corrigiu por lhe ter dito em tom de brincadeira e sem qualquer sentido pejorativo: oh dona P., faça o favor de qualquer coisa. Pois ela, ciente do seu requinte e estatuto alcançado por fazer parte de tão nobre fauna estudantil, resolveu educar a pelintra: que não, que era senhora dona. Eu claro, não só anui, como pedi desculpa: pois que sim. E pensei com os meus botões: olhando bem para ti sob o critério do tríplice catálogo deves estar a roçar o senhora pela borda de baixo, mas a vida fará de ti uma dona a quem chamarão doutora ou senhora dona, sem que tu nunca venhas a sonhar o real significado e alcance de tal epíteto. Que interessa isso? Viva a democracia e as tuas certezas. E tens razão, a tua Las Vegas é muito melhor do que a minha. Creio até que acenderam as luzes só para a tua chegada.
Bem sei que todos temos as nossas pequenas vaidades e tudo isto soa a misto de mesquinhez e presunção, mas passei ano após ano a conter-me, evitando dizer o que pensava – e o que realmente era -, para não melindrar os outros. Normalmente quem assim age tem como paga ser ainda mais desconsiderado neste mundo moderninho feito da aparência. Pelo que tarde ou cedo, chega momento em que a paciência e os paninhos quentes se esgotam. Há escolhas que se fazem cedo: há quem viva a pisar quem passa pelo caminho para ser alguém, quando todo o meu empenho em ser alguém – passe a imodéstia - se traduz em coisas tão simples como pedir ao dono da loja de móveis na Rua da Picaria que me fizesse oito cadeiras em palhinha sem o fio embutido nas costas e travessões, para que se parecessem com o mais rústico conjunto de cadeiras que havia na casa onde cresci, e onde a minha avó me costumava ralhar em criança pequena por trepar para a cadeira apoiando os joelhos na palhinha. Ou, tão simplesmente, em aprender a fazer uma barrela de perborato.