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13/01/2021

Episódios de Janeiro 2021 - O Oriente

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Lembro-me dos primeiros quatro conhecidos virtuais do final do século XX: dois norte-americanos, um kwaitiano e uma neozelandesa e das curtas e úteis conversas que tive, apesar do meu parco e mau inglês. Mais talvez do que os rápidos diálogos tidos em viagens de turismo, que pouco acrescentam ao nosso conhecimento sobre os locais que pisamos, conversar com os outros sem scripts determinados por circunstâncias limitadoras da livre expressão, dá-nos a oportunidade e a proximidade necessária para deixar de ver o mundo através do simplismo e dicotomia nós e eles. O Golfo Pérsico deixou de ser uma abstracção da televisão onde caíam rockets e o Kuwait passou a ser a terra onde nasceu, vivia e trabalhava um conhecido com apurado sentido de humor. Os Estados Unidos deixaram de ser só um rico e belíssimo país que visitei e que é permanentemente desprezado pela sobranceria das pessoas pouco educadas da velha europa, para ser o berço do cristão defensor das causas cívicas da costa atlântica e do mais terra-a-terra texano. E a Nova Zelândia deixou de ser apenas um enorme e idílico campo verde, para se transformar na casa de uma mãe preocupada com a fragilidade de um filho. A vinte anos de distância pergunto-me se esta mãe terá votado em Jacinda Ardern e se sentirá representada. Infelizmente, nos vinte anos seguintes quase só cavaqueei com portugueses. As conversas de outrora fazem-me falta para tomar pulso ao mundo.  


A Terra não está para meninos. Não é a enterrar a cabeça na areia e a negar a realidade, a injuriar comodamente ou a fazer chacota de quem põe em causa as nossas regalias, ou a defender romanticamente um status quo que não serve a cada vez maior número de pessoas, que vamos defender a vida, a democracia e a liberdade de expressão.


A flor amarela que está no meu perfil este ano foi arranjada num site chinês. Conhecendo a dificuldade em encontrar o que preciso em sites através do português e tendo-me habituado a fazer pesquisas noutros idiomas (apesar da franca dificuldade no seu domínio) para conseguir obter o que quero, e não tendo intenção de vir a aprender mandarim ou cantonês, lancei mão das ferramentas que existem, e para quem não tem grandes ambições – apenas saber com que linhas se cose o futuro do mundo -, o tradutor do Google para chinês simplificado é suficiente. Dou por mim a devanear na ideia recorrente dos últimos anos e numa das 350 resoluções anuais, das quais concretizo duas ou três: talvez esteja na hora de recomeçar a conversar. Talvez com o Oriente.


Mundo longínquo que me chegou até hoje sobretudo por via feminina nos relatos que me fizeram em criança da visão ocidentalizada da China impressa nos livros de Pearl Buck, e no final da adolescência da áspera história das últimas gerações dos Cisnes Selvagens, ou das mais recentes incursões pela China, na viragem do milénio, de Peter Hessler. Apesar de não ter lido estes autores/livros – e de ainda ter as Rotas da Seda na calha da próxima série a ler -, digamos que os relatos que me chegaram foram bastante minuciosos.


Esse mundo surgiu-me também na viagem de dois meses à Austrália, com duas paragens em Singapura, para lá com a preocupação de viajar com quem adoeceu no vôo, para cá com dois dias e o tempo suficiente para visitar em zona industrial uma fábrica em laboração – onde vi os mais belos planisférios de porcelana azul breu que tenho memória e pena de ter perdido as fotografias -, o Jardim Botânico e o Mercado, no qual retive os profundos e impressionantes olhos verdes esmeralda duma jovem vendedora. E onde me senti em absoluta segurança – quase única quando fora de Portugal – ao passear à noite pelas ruas da cidade. Mas também das leituras de História e das dinastias e das consultas esotéricas que na China envolvem as crenças e superstições na sabedoria que nos traz o mundo antigo, no qual palavras como parcimónia, vento, rio e vénia voltam a ganhar significado. Sem esquecer a mundividência que transportam os filmes de animação japoneses e sul-coreanos. Nem o conhecimento da extraordinária capacidade de trabalho, dedicação e abdicação das gentes de leste. E num plano mais terreno dos contactos profissionais nos últimos 15 anos com cidadãos chineses residentes em Portugal.


Tudo isto é nada. É muito pouco o que me chega do Oriente. Só conversando sobre as banalidades do dia-a-dia com orientais poderei vislumbrar mais do que isto. Será que é este ano que retomo as conversas fora do português?


A ver vamos.