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21/12/2022

Lições de Vida

Na Escola da Misericórdia passei por duas situações que me marcaram para a vida – podia ficar pela palavra “situações”, mas não vincava a durabilidade que me apetece reforçar. Bom, e também perdia a oportunidade de dizer que até tarde, talvez aos doze, ainda tinha dúvidas se me “abetecia” ou apetecia, tal como uns anos antes não sabia se tinha “bescoço” ou pescoço. E diverte-me a profusão de teorias e sentenças dos mestre-escola e dos psicólogos lifestyle sobre falhas como esta face à ausência total de teorias sobre o assumir de erros. A apontar defeitos aos outros, milhões, mas a assumir erros próprios, isso agora não há quem goste, a menos que se faça uma piadinha e através do brilhantismo da ironia se assuma o pequeno erro – qual pecador magnânimo perante os rebanhos de seguidores hipnotizados pelo humor e inteligência dos mestre-escola e psicólogos lifestyle e fascinados com a forma como são capazes de replicar na perfeição as graças e as sentenças. Bom, voltemos às situações que me marcaram na escola primária. Foram bastantes mais. Se todos atentássemos nos muitos episódios que nos formam e enformam, não faríamos nada mais de interessante na vida senão o papel de tia chata a contar histórias que não interessam nem ao Menino Jesus. Todavia (notem o esforço de variar a adversativa “mas”, só para vos deixar contentes, a vós que fazeis de conta não prestar atenção aos comuns mortais – a menos que tragam benefício – tão ocupados estais na comunicação social e redes sociais a enaltecer amigos e ilustres de conveniência que vos potenciem o sucesso) a vida é como é e à falta de assuntos e afazeres palpitantes para tratar, continuo nestas sensaborias das memórias. Como imaginam os demais leitores (felizmente contam-se pelos dedos de duas mãos, às vezes três), estas historietas que deixo entediam-me tanto que continuo a conversá-las. É militância. Um sacrifício só. Espero que estejam a sofrer comigo e mortos por se pôr na alheta para enfim ter animação ou alimento intelectual de jeito.


Antes dos sete anos, não tenho presente a idade certa, apenas me lembro que andava na primeira ou segunda classe - como a memória não é boa, distingo os anos pela sala que ocupava à época - a irmã dá sinal para intervalo da manhã e entra uma das empregadas com pão com marmelada num prato, dizendo ser para a menina. A minha mãe dera indicação para que comesse qualquer coisa na escola a meio da manhã. Sucede que a maioria dos meus colegas não levava nada, ou nalguns casos levavam um pão com nada ou pouco mais que nada. Recordo que houve uma altura em que o ministério distribuiu pacotes de leite – nunca o bebi, espero que tenha sabido bem a quem o bebeu – não me lembro de o possuir e se o tive do que lhe fazia. Mas antes disso, chega-me então um pires com um pão recheado de uma generosa fatia de marmelada, que eu odiava, diga-se. Nesta ocasião talvez chegasse um buraco para enterrar o pão, a marmelada, o pires e a menina. Mas como tudo pode piorar também tive o baptismo na sala de refeições junto à cozinha. Éramos dez no máximo. Chega sopa para todos. E um prato de massa cotovelo riscada com chouriço para a menina, que por acaso adora massa com chouriço mas ainda hoje está para saber se conseguiu dar uma garfada no apetitoso prato atento o monumental nó na garganta. Quando percebi o que me estava a acontecer só queria fugir. Não havia buraco que chegasse para enfiar a massa, o chouriço, o prato e a mim própria. Não me lembro o que disse em casa, mas sei que não voltei a comer na escola primária. Folguei muito quando cheguei ao ciclo preparatório e apesar de algumas contrariedades percebi que havia cantinas democráticas, onde toda a gente comia o mesmo.


Por isso, naquelas discussões imbecis quando se dizia que o problema dos portugueses é não trabalharem para o porsche em vez de invejarem o do vizinho, digo com toda a franqueza que odeio "porsches" e não é por inveja mas por genuinamente não achar piada nenhuma a carros muito menos a desportivos e, também, por respeito ao próximo. E pela mesma razão não gosto de vaidade vã ou soberba intelectual. A imagem não é elegante e aliás presta-se a trocadilhos fáceis com dor de cotovelo – sempre a saída mais fácil de rotular tudo neste país onde se querem perpectuar dois fracos sinais de inteligência das elites fajutas: a leviandade e a presunção. O certo é que a vaidade e a arrogância me dão vontade de vomitar a massa cotovelo riscada com chouriço.


As gralhas devem ser mais do que muitas, mas tenho sono. Não vou rever novamente.