Vi o jogo desde o final da primeira parte. Passou-me pela ideia o seguinte: há uns anos ficaria contente, lá mais atrás entusiasmar-me-ia. O futebol era importante. O Portinho e a Selecção. Hoje foi confortável, fiquei contente ao ver a expressão de alegria no rosto dos jogadores, da pequenita que filmaram entre o público, creio que no momento do Ronaldo marcar o livre contra a barreira. Não é relevante, antes sim a atitude cordata de apoio aos compinchas a partir do banco para compôr a imagem beliscada nas últimas semanas. Do lado de fora do relvado irrita-me brandamente o aproveitamento de Marcelo e Costa e dos políticos e vips em geral.
Não vi os dois primeiros e gostei do último golo; foi bonito. De resto, pareceu-me tudo fácil, em jeito de vento favorável - não, não, já não cedo ao apelo das análises de jogo nem a mínima vontade de as fazer. Quando muito acho curiosa a comoção, convicção e as grandes teorias que nelas são postas pelos amantes do futebol. A continuar assim qualquer dia estou com aquelas conversas sobre as pernas e os abdominais dos jogadores, que me irritavam sobremaneira por estar habituada a ver o jogo mesmo na perspectiva desportiva.
Hoje há distância do que vai acontecendo. Como se os grandes devaneios do passado, uma vez concretizados tão tardiamente perdessem élan. Fiquei contente com a vitória expressiva perante a frágil Suíça, quase tanto como ao ver o choro de alegria da colega de trabalho, que esta manhã "viu" nascer o primeiro sobrinho-neto.
É engraçado como o tempo retira carga dramática à vida. Em rigor, carga emocional. A capacidade de comoção vai-se esvaindo. Bom, em mim foi. Melhor, nesta fase da vida foi. Amanhã não sei. Talvez noutros não seja assim. Lá está, não faz sentido nenhum dizer que a vida é isto ou aquilo. Vale tudo e o seu contrário. Vale saber o que sentimos e pensamos a cada momento. E agora o que prevalece em mim, é este pairar de pássaro sobre um solo movediço e incerto.
Nos últimos dias pousou no meu espírito a sensação de há muito planar sobre a vida. É como me sinto. Muitas vezes reparei nessa forma de estar nos outros, distraídos de muito quanto se passa à sua volta. Tocou-me a mim, agora. Não disponho da possibilidade de estar atenta às mil e uma solicitações alheias. Absorvo-me os cuidados. Preciso deles para viver o ritmo estonteante a aparentar enganadora tranquilidade do último ano. Dos últimos anos talvez, mas mais deste ano e meio. Na impossibilidade de dominar os acontecimentos, de antecipá-los e trabalhar neles com diligência, acorro ao que posso na ideia de fazer asneiras o menos possível - ainda que faça imensas, naturalmente; cada vez mais. A própria vida foge-me das mãos para ganhar rumo próprio, sem me dar sinais consistentes do que será o futuro. Gostando de mudanças e surpresas, não sou muito de achar piada a perder o controlo da vida. Até por ter experiência exacta do lado negativo dessa perda de domínio sobre a vontade e o entendimento - o juízo.

Mais cedo fui abrir a cama e agora vou aquecer água para o saco de água quente - mais um pormenor a indiciar uma forma de estar antiquada. É uma herança retocada com traços de carácter próprios que conferem certa originalidade, não deixando de ser um gosto conservador. Ele é o vocabulário, o gosto pelas rotinas, o moralismo, os exames de consciência, as eternas dúvidas e a insegurança, o rádio despertador, o saco de água quente. Maravilha, o que me interessa é que daqui a nada enfiarei o pijama velho, aquecerei as mãos e os pés para logo a seguir rejeitar o saco de água quente e descansar aconchegada. Um luxo. Esta altura do ano é propícia a valorizar o essencial - depois do Verão de 2007, no pior momento da minha vida, seguiu-se um ano de descoberta de prioridades e de perceber o valor de ter uma cama quente onde dormir e possuir discernimento e afeição capazes de criar harmonia.*
*Ia escrever sobre os que de forma fácil e fútil acham isto pouco ou uma espécie de infeliz resignação, mas estragaria a ideia. Por hoje, o que cada um pensa, deixá-lo pensar. Talvez noutro dia tente só afirmar e explicar pela positiva o tal "pouco" para tantos, que é tanto para poucos - parece um jogo de palavras com vista ao efeito bonito, mas não, é mesmo isso.
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Como explicar que isto não é vontade de me elevar ao quer que seja, mas tão só um deixar-me ir inelutável?