Quando as ideias fervilham, a vida quotidiana continua a ocupar o espaço normal no tempo e os acontecidos dobram ou triplicam, não é humanamente possível reduzir as primeiras a escrito. Aproveita-se contudo o pouco que vai sobrando. E nesta época festiva efervescente caiu-me no regaço este apontamento: apesar de ser verdade aquilo que aqui foi dito inúmeras vezes acerca do peso do acaso e do quão aleatório é o caro privilégio do reconhecimento, não vale a pena zangar-nos com os vaidosos e oportunistas que sempre invocam para si ou para os que admiram especiais qualidades de dedicação, trabalho esforçado e talento, escondendo deliberadamente os favores, as facilidades, as oportunidades, a sorte. Em muitos casos estão convencidos da tal superioridade moral por trabalharem mais e melhor e, sobretudo, por considerarem ter domínio sobre as suas acções e mão na vontade própria. Como estariam cientes do contrário se o vento que lhes calhou soprasse em sentido inverso. Precisam de explicação lógica que satisfaça e justifique o ego – é uma necessidade fisiológica ou, em rigor, na pirâmide de Abraham Maslow, a necessidade de estima ou status.