Não consigo lembrar as teorias moralistas que ia debitar de manhã. Mas como a esperança é a última a morrer pode ser que se me abra o espírito antes de terminar o post e a elas faça referência. São quase nove e meia da noite, a televisão exibe o Vasquinho - como conhecemos cá em casa o programa de perguntas de cultura geral da RTP a que o Nuno assiste todas as noites. Hoje divide comigo o sofá no pretexto de estrearmos as meias de motivos alusivos à época – é a primeira vez na vida que uso uma peça de vestuário natalícia. São muito quentinhas: acolchoadas, com pêlo interior e anti-derrapante. Ontem aqui passamos o fim de tarde de televisão desligada, como fica melhor, e no pretexto de ouvir as maçadoras canções de Natal enquanto depenicávamos pipocas salgadas. Após jantar assistimos ao ardil no condicionamento da opinião do mui experimentado comentador Marques Mendes, seguido de vivas gargalhadas provocadas pelo RAP – não posso deixar de reparar no tique de professor primário que agora faz escola entre os líderes de opinião de sucesso. Voltando a Marques Mendes, teve o mérito ao apresentar o Quem Quer ser Primeiro-Ministro, de me recordar os jogos de tabuleiro, acabando por mandar vir o Trivial Pursuit, o que é um tanto estranho quando este tipo de jogos tem variantes digitais acessíveis nos smartphones – já houve um tempo que joguei no telemóvel; pouco, por me cansar rapidamente.
Depois da primeira parte de tão imprescindíveis revelações e de tão fértil forma e substância, não sei que mais diga. Talvez adiante que lá à frente hei-de escrever sobre a impossibilidade de gente com percursos de vida muito distintos pensar e sentir o Natal de forma semelhante. E daí partir para o complexo quadro de influências, às vezes antagónicas dentro de uma alma só, daquilo que faz a matéria física, pensante e emocional de cada um. Não há duas almas iguais e disso se faz a beleza e a dificuldade da vida. O quadro dos ventos naturais que determinam as circunstâncias de vida e dos ventos psicológicos que desenham o perfil racional e emocional. Talvez lembre só que é comum confundir-se racionalidade com objectividade e emoção com subjectividade, o que faz pouco sentido – daí usar tantas vezes juntos os verbos pensar e sentir, para evitar essa subalternização sem fundamento lógico do emocional face ao racional, como se fosse um achaque de pessoas pouco preparadas para a vida. Visão que resulta do medo das emoções e leva ao culto da pseudo-razão.
E quem diz Natal, diz tudo o resto. A perspectiva na vida faz-se do percurso e não só. Dos imaginários ficcionais a que cada um foi permeável. E na ficção não entra só a leitura, cinema, música, etc, como todo o manancial de narrativas de descrição da realidade que formaram as mentalidades ao longo de décadas, especialmente, no último século. Para lá das circunstâncias físicas, a forma como a realidade foi apresentada ou vendida nos livros, cinema, música, comunicação social e agora nas redes sociais molda e condiciona não só ideais intelectuais e morais como as ambições emocionais – parecerá isto a subversão dos paradigmas da objectividade e subjectividade?
Esqueci-me mesmo das moralidades. Pena. Mas virão noutro dia. Sei que sim. Como prémio de consolação, depois de reler o texto confirmo que cumpri a promessa de escrever baboseiras. Entretanto, ocorreu-me a ideia de escolha entre ser respeitada por aprofundar a loucura das baboseiras ou manter-me na mediania da tona - a decisão recairá sempre na última: era o que me faltava andar a sustentar lunáticos à custa da minha saúde.

Adenda.
Não, não é gesso. Não parti os dois pés. São acolchoadas.
Desde que as pus, tenho dificuldade em manter a dignidade sabendo que por cada par de pés alegre e a viver em tranquilidade como os meus estão este ano, há muitos milhares a sofrer. A vida é cruel. Mas também sei que não é por escrever meia-dúzia de palavras contra o consumismo ou a falsidade desta época do ano que a realidade difícil muda, por exemplo, na Ucrânia.