Pura, diz-te quem te é mais íntimo. Burra, ingénua, traduzes. Não, nem uma coisa nem outra, retorque quem te ama. Pura, no sentido de original não contaminada, esclarece. Dizes isso por gostares de mim, desacreditas. Genuína, dizem-te no local de trabalho. Isto a propósito das correcções de ideias e precipitações sucessivas que dão aquele ar atabalhoado e te fazem sempre chegar ao ponto de desistir de corrigir sob pena de além de atabalhoada pareceres desaustinada. Ah e tal, dá tanto valor à opinião dos outros. Bastante menos dos que fingem e todos os dias sentenciam os defeitos dos outros, ao mesmo tempo que constroem a imagem em cima da dissimulação de falhas próprias e de sacanices diárias. Um através de melodias, imagens e citações, de um enjoo e burlesco só, que dirige de modo encoberto. A fazer-te lembrar um outro da mesma estirpe que no passado te disse ter-se afastado da pessoa a quem mais queria por querer protegê-la do facto de ser uma pessoa muito invejada. Acreditas, convencido de por ela ser estimado, já que dizia que ninguém como ela o compreendia. Se tivessem noção do ridículo dos tamancos que nunca descalçaram e da comiseração que inspiram. A ausência de espelho em casa é notória.
Lembras a forma cínica como os portuenses e os nortenhos são vistos por quem diz admirar a sua frontalidade e carácter genuíno. Uma admiração embusteira pela fraqueza e carácter autêntico de quem se considera menos iludido, mais esclarecido e sofisticado. De quem precisa de lançar mão do elogio fácil para caracterizar aquilo que considera torpe e rústico. A fórmula mágica para esconder a índole desleal é apregoar quão castiços são os portuenses, esses espécimes de zoológico - afinal a vida civilizada é dura e os cosmopolitas têm de se resignar a ser mais maduros e reflectidos. Já no Norte a maioria diz o que pensa. Pacóvios, não sabem estar em sociedade nem dispõem da arte de manejar as armas de acesso ao poder.
A menos que o portuense ou nortenho faça parte (e faça questão em afirmá-lo) de uma aristocracia antiga que deslumbra de forma bacoca os ditos sofisticados. Ridiculamente bajulados por estes cabotinos, esperançosos de enobrecer por osmose – os presunçosos sempre no encalço e sombra de quem lhes der ser e a cada instante e a desproposito a mostrar intimidade com os ilustres do país inteiro. Ou, então, da sua terra fique a devanear com as luzes do adro, essa referência de mundo instruído e arejado a quem se associa à distância em reverência iludida. Ou, por fim, emigre para a provinciana capital em busca do el dourado (das oportunidades para a marabunta e das boas relações e dos corredores do poder para os futuros notáveis) e se transforme numa caricatura dos piores tiques de adro da igreja de aldeia, que é Lisboa e arrabaldes. Há-os aos magotes entre os ilustres, fazem a essência do esfuziante centro de poder nacional, essa galeria de intriga política e vaidades, feita de ganapos arrivistas e empinocadas para a missa de Domingo. O sermão esse passa todos os dias na televisão, nos jornais, blogues, twitters e outras redes sociais de referência, que afirmam dar muito valor ao debate e à Democracia. Comunhão perfeita entre naturais e emigrados há mais ou menos gerações, todos munidos de grande oratória e vastos dotes de argumentação, considerando-se muito arrojados, pensados e sofisticados. Habitantes do centro do mundinho. Hoje alagado – termo bem rústico – pela chuva e tanto brilhantismo de gerações e gerações de iluminados a debater e administrar. Infelizmente, os mesmos que nos têm governado.
Mas o que é tudo isto face às consequências das alterações climáticas? Nada mais do que bairrismo, ressabiamento e má-vontade. Na tua casa há espelho.
Votos de boa terça-feira.