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Comentava há pouco aquilo de que já me apercebi num postal anterior. Ando com muita conversa subjectiva e pouco dada a objectividades. Talvez por não ter perdido muito tempo com os jornais nos últimos dias (semanas?). Acontece. E sempre que acontece, semanas ou meses depois, percebo que não perdi nada de substancial. A coisa – a matéria dos acontecidos do país e do mundo –, vai-se enganchando de tal modo no tempo, que é só puxar pela corrente (reparem que não escrevi cadeado) e logo o todo se mostra mais perceptível do que se andasse em desassossego permanente a fuçar nos jornais. Claro que escapam os inevitáveis episódios caricatos que enchem os dias de aparente significado. Tanto melhor, mais espaço por contaminar fica. É precisa certa pureza para prosseguir achando que ainda vale a pena pensar e escrever qualquer coisa que não seja espartilhada pela sofreguidão das notícias.
E voltando ao subjectivo e aos meus dias. Voltei – ao fim de três semanas -, ao trabalho presencial e eis que descubro ao dia 21 que ainda não havia comprado o passe de transportes. Foi difícil convencer a funcionária dos STCP que sim, era mesmo isso: queria o passe de Dezembro a dez dias do final do mês. É estranho, mas feitas as contas, oito dias de títulos individuais sairiam mais caros. Voltei ao rame-rame, revi caras e soube notícias dos colegas e de quem lhes é importante. O normal: aflições e alegrias. Senti o gostinho da aceleração própria de quem não está em casa, a três quatro metros da cozinha e a seis ou sete do sofá. É outra coisa. Bem dizia há uns anos a alguém que me queria convencer das vantagens do teletrabalho, que qualquer coisa me impelia a sair e ir trabalhar com horários e obrigações mais palpáveis, digamos assim. Aliás, acho admirável que a maioria das pessoas diga que trabalha mais em casa. É certo que se trabalha fora dos horários, mas meus queridos, não me venham com histórias, conheço muito sorna que atira com essa verdade dominante, e só rindo. Tal como conheço muito espavento que também advoga as virtudes do teletrabalho, e só rindo. Nesta matéria, como em muitas outras, fico dividida: gosto de estar e casa, mas sabe muito bem espevitar.
Ao fim da tarde, para gozo de alguns – ah e tal, deixar as compras de Natal para os últimos dias -, em cerca de quarenta minutos resolvi a questão dos presentes para cinco pessoas. Tungas. Três lojas. E na última vi-me envolvida numa batotice que não costumo fazer. Entro na loja de bijuteria, vejo o relógio que quero oferecer em trinta segundos. Pego nele e vou para a fila. Cerca de seis ou sete pessoas à frente. Vejo uma das funcionárias a olhar para mim. Vem ter comigo, pergunta se vou levar aquele mesmo. Digo que sim. Diz que me vai buscar a caixa. Faz-me sinal. Incrédula, vou até à porta. E ali mesmo, com outro terminal multibanco, tratamos das contas. Perante o meu espanto, vai-me dizendo que ninguém notou e, logo chega uma senhora a pedir igual tratamento. Pois que não, diz-lhe a menina em voz alta, e a mim em baixa: ora, havia de ser para todos, eu é que escolho. Bem-disposta continua: vou autografar-lhe isto para quando eu for famosa. Ao que respondi que era melhor dizer-me o nome, para quando chegar esse momento saber quem é. Ela responde: I. Magalhães. Digo que também sou Magalhães. Ela pergunta-me de onde sou. Respondo por comodismo: Porto. Ela simpática diz que é de Amarante. Digo que ainda assim é provável que sejamos primas. Pergunto se ali também sai talão de troca. Diz-me que ali faz tudo, só não tira café. Digo que é pena, porque já tomava um. E, entretanto, vou ouvindo gargalhadas no auricular; sim, fiz todas as compras ao telefone (vício que sempre odiei, mas a que aderi nos últimos tempos). Despeço-me e oiço no auricular depois de alguns comentários sobre o sotaque da minha interlocutora: é de mim ou ela estava a fazer-se a ti? Respondo que nada disso, aliás, pela conversa mais depressa se deduzia o contrário e adianto uma explicação lógica e verossímil: a menina, esperta rapariga nortenha como só as nortenhas sabem ser, percebeu que naquela fila eu era a pessoa que ocupava mais espaço – na loja visivelmente a ultrapassar o número limite de clientes imposto -, logo, solícita e delicada veio atender-me, sem me fazer sentir isso mesmo. Mostrando saber ser além de inteligente, elegante. Et voilà. Muito savoir-faire.