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Passa das nove e meia e um dia sem escrever. Já estranho dias assim. Pode ser que o café ajude. Vou fazê-lo e quando voltar talvez tenha uma ideia magnífica. Voltei, mas havia muito para fazer e continua a haver. Entretanto são quase onze. Ontem pensei em escrever qualquer coisa sobre pessoas que não valorizam os outros e o que lhes é importante, ou pelo menos parecem incapazes de o assumir, apesar de valorizarem. E dei por mim a pensar pela milésima vez quão chato é estar com este tipo de moralismos e apreciações críticas sobre outros. Mas lá está, foge-me o pé para isto e não há como dar a volta e fugir.
Que espécie de embrutecimento ou insegurança leva alguém a sistematicamente diminuir, desvalorizar ou mesmo denegrir alguém mais ou menos próximo? Não tenho muita pachorra para o chavão das ‘pessoas tóxicas’, por saber que é muito fácil confundir alguém que nos critica e chama a atenção para os nossos defeitos com uma destas pessoas. É uma tentação querer viver confortável só com o lado cor-de-rosa da vida, e isso normalmente resulta na nossa mediocridade e falta de noção da realidade.
Ainda que ciente disto, é facto que o vício do criticismo e o constante desacreditar nas nossas capacidades mina o melhor que possamos ter. Se nos habituarmos a sempre ver apontar defeitos e nunca reconhecer qualidades, passaremos parte substancial do tempo da nossa vida a lutar contra fantasmas e derrotismos. E a sujeitarmo-nos ao permanente julgamento que nos eterniza como culpados.
É também por isso que admiro o Nuno. Com os mais feios e duros revezes que tivemos na vida, especialmente ele, em momento algum se tentou com a fuga fácil para a mesquinhez, as acusações e o derrotismo. A forma sã com que aceita, incentiva e se encanta com a alegria e os triunfos próprios e alheios faz dele um homem bom. Não é um optimismo bacoco de quem não teve dificuldades na vida ou as ignora. É a militância em ser naturalmente melhor.
Somos duas pessoas livres. Não sabemos o dia de amanhã. Mas conheço bem a sorte de ter por perto este tesouro, que nunca quis mudar quem sou e sempre me acreditou.