Ontem depois do jantar resolvi sair e comprar um livro para oferta. No caso, a bem disposta Uma História de Espanha, de Arturo Pérez-Reverte. Para me despachar e respeitar os horários covídicos usei a Uber. Para lá o rádio estava ligado numa estação regional, tendo ouvido logo à entrada o anúncio da frequência para Felgueiras, Lousada e Paredes. Conclui que deveria ser mais um motorista daquela zona e, com pouca e cordial conversa, senti-me em casa. Para cá, uma paragem pelo meio para deixar o livro, num Renault Mégane, cuja porta do passageiro rangia com vontade. Coisa estranha na Uber, na qual tenho apanhado sempre carros cuidados. O condutor de fato treino e funk na rádio (o do youtube abaixo). Música com espantosa letra para brindar os passageiros. Hoje ao lembrar-me do pequeno percurso e daquele momento de ontem, recuei quase 25 anos, e recordei o episódio em que saída do carro de um amigo na Praça da Batalha, juntamente com o seu pai, português de Angola, e emigrado para o Brasil nos anos 70, onde vivia desde então, dei por ele completamente imóvel e siderado. Como se não conseguisse sair daquele pasmo, perguntei o que se passava e ele de olhar fixo na direcção de Santa Catarina, ali na embocadura de Rua 31 de Janeiro (de Santo António) e da antiga Livraria Latina, disse-me: Oh, é tanta cor na roupa das pessoas. Da última vez que estive aqui [talvez há outros tantos 25 anos] era tudo negro, as pessoas vestiam todas de negro. O pai do meu amigo guardara a imagem do País que conheceu e que perdera de vista nos muitos anos de Angola e Brasil. Portugal não era há muito o País de antes.
Ao ser presenteada num banal percurso de Uber com o funk de ontem foi disto que me lembrei: céus, como o País liberou. E isto digo eu que cá sempre tenho estado, imagine-se para quem aterre depois de muitos anos de ausência.