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Ida e vinda a Campanhã. Tudo impecável. Condutores de Uber simpáticos e faladores a fazer esquecer o da quarta-feira passada. Para lá histórias de comboios com cenas inspiradas em filmes de ‘Berlusconi’ (risos). Creio que ele queria dizer Fellini, mas isso não interessa nada, até porque a passageira sabe tanto de cinema quanto o condutor; bom, pelo menos sabe que os filmes de Berlusconi são doutra natureza. Interessa sim o que ficou na memória agora relatada: as chapadas que ele deu aos sete ou oito anos aos saudosos que se despediam na plataforma de Campanhã. Ah, e a Linha do Tua. Linda, linda. O pior é o calor naquela terra onde são nove meses de inverno e três de inferno. Tinha para a troca: num inverno em criança, o comboio para a Covilhã em carruagem antiga daquelas com camarotes e janelas que abriam, como nos filmes. E ele mais as travessias da Dona Maria e dos tremores encostados ao resguardo quando passava o comboio. À vinda conversa cordial mas com palavras mais caras, como paradigma e família monoparental, e isto só para falar listas de compras no Continente. Fosse a viagem mais longa e imagine-se o que teria sido. Teria de puxar do dicionário. Vou começar a andar com bloco na Uber.
Compras. Almoço. Telefonemas pluriparentais para suprir o confinamento. Sim, falámos com os quatro; não deixamos escapar ninguém. A boa disposição reina, mas as gargalhadas maiores vieram da última chamada. Pelo insólito.
Liga-me o meu pai. Ah e tal e coisa, comprei-te um livrito. Sabes, ouvi na televisão alguém falar do livro e lembrei-me que talvez gostasses. Hum, pai. Não será o Férias em Paris, do Maugham? Ah? Não (risos), como sabes? Sim, é esse todo. Pois, eu também ouvi o Rogeiro, mas por acaso até já o tinha comprado para dar ao pai no Natal (risos). Às tantas nem é preciso trocarmos, cada um fica com o seu. Não, não, trocamos sim (mais risos).
E pronto, no próximo dia 24 como manda o figurino, em vez de compota, lá vai haver uma permuta de Maugham em papel pardo da Fnac por Maugham em papel palavroso da Bertrand, o autor que desde criança vi na mesinha cabeceira do meu pai. Especialmente as Histórias dos Mares do Sul. Com a idade até o insólito começa a ficar previsível.