Que tal falar da diferença entre criar, debitar e destruir? Se para alguns é difícil lidar com o acto de criação, apesar de forma regular e sem pensar se encontrarem em modo de dádiva, outros gostam mais de oscilar entre debitar e destruir. Uma espécie de pré-cozinhado de opinião, humor e escrita. Não se julgue que é tarefa fácil. Há-que saber escolher a massa sobre a qual estender o creme de desdém e sobranceria pela humanidade. Há-que ser tendencialmente desonesto, disciplinado e perseverante no menosprezo. Há muitos anos, oiço e leio outros. Apesar da consciência me impôr a noção de todos sermos uma miscelânea e de prevalecerem as zonas cinzentas, não posso deixar de verificar que lado a lado de gente de valor, uma chusma de oportunistas de fraca cabeça e coração, incapaz de gerar uma ideia original apesar de pródiga na produção de conversa e texto, alterna entre a redacção sobre a vaca, em idade que esta a deveria envergonhar (mas com os acentos e as vírgulas colocadas nos sítios certos), e o inventário de sapiência a espelhar o desprezo estereotipado pelos que consideram inferiores. Duas formas de se alçar ao reconhecimento alheio. Inverte-se a regra da nobreza de carácter: calca-se quem está em baixo (económica, social ou intelectualmente ou por qualquer circunstância momentânea) para obter o respeito de quem está acima.
Há uma lista de ditos, juízos e gostos que serve de cola à elite fajuta que nos caiu em sorte. E de cânones estudados para serem usados como ferramenta de afirmação sem a preocupação de perceber a causa das coisas. Servem apenas de espécie de senha de entrada nesse mundo previsível e fracativo (credo, a palavra não existe). Os utilizadores replicam-nos por mimetismo, sem um átomo de inovação, apesar de poderem desenvolver ideias ancoradas em factos infindos, até de arriscarem a criação vasculhando as notícias e originalidades entre o que é dito por quem cria. Replicam-se, desdobrando opiniões e julgamentos aparentemente diversos e fundamentados por acção da fragmentação das razões que conduz a argumentação ao infinito. Fazem-no como forma de se distinguirem do vulgar e ignorante resto da humanidade, sem perceberem que colaram a cuspe, sem os questionar como um todo, cada um desses gracejos e apreciações em voga na voz dominante fabricada pelas elites.
(Ainda em modo de alheamento da actualidade. Bem bom.)