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18/07/2022

Dois lados

Li há semanas um pequeno apontamento poético de imagem bem conseguida. Não conheço o autor/autora e para o caso é indiferente. Fiquei, como já anunciei, com vontade de me debruçar sobre essas palavras. Ou melhor, sobre o que me inspiraram, apesar de certa de estar longe da intenção de quem as escreveu. Faço um preâmbulo, antes mesmo de me atirar ao que quero dizer ainda por estruturar. Apesar de tentar seguir rumo próprio, afastando-me intencionalmente dos temas do momento e tópicos escaparate, por achar que esses são dos mais empobrecedores tiques impostos pela necessidade de aprovação e popularidade (também sofro desses defeitos, mas de forma diferente), é muito comum aqui nas Comezinhas escrever espicaçada por leituras pontuais sem as nomear. O que pode parecer cobardia e falta de objectividade (admito que possa enfermar desses defeitos) corresponderá antes à vontade de ir à ideia e não à intriga. O facto de nomearmos os autores que lemos, de citarmos os textos concretos, de elencarmos datas, acontecimentos, nomes se nos traz mais informação, a possibilidade de discussão e confrontação e a tão almejada imagem de conhecedor, carrega também uma imensidão de preconceito e de tralha desinteressante. Desossar o pensamento e sentimento expresso por outros dá-nos uma liberdade imensa e aquilo que a olhos alheios parecerá uma abstracção inútil ou até um boato infundado, passe a redundância, é tantas vezes a mais concreta e objectiva observação, simplesmente despida de sujeito e de factos passíveis de identificação. Feito o preliminar a ver se me lembro do que queria dizer na sexta-feira.


Há muitos momentos em que, por razões que não me interessa revelar, face a leituras de trechos nos quais vivem duas personagens que se contrapõem no pensamento ou sentimento, dou por mim a fazer o exercício espontâneo (aliás, começa a ser inelutável) de me colocar nas duas posições, sem chegar a conclusão qual me caberá. Imagine-se a situação se o tema for quadrantes políticos ou até interesses românticos. Para quem está habituado a cada instante a tomadas de posição muito definidas e peremptórias ainda que no momento seguinte desdiga tudo quanto afirmou antes, é difícil perceber alguém que não adere fácil e rapidamente a lados ou interesses.


Lembro quando era criança e brincava com os meus irmãos e primos em jogos nos quais tínhamos de nos dividir em campos opostos sempre acusávamos os que queriam assumir a neutralidade. Era posição de inadmissível cobardia. Nessas ocasiões escolhia (ou escolhiam por mim por ser mais nova) um lado e isso facilitava-me a vida. Pertencer a uma tribo é a mais fácil forma de estar na vida. Noutra circunstância, quando me perguntavam se gostava mais da mãe ou do pai, mentia com todos os dentes, afirmando: dos dois igual. E não é que não conhecesse crianças honestas a dizer o que pensavam. Achava sim que havia verdades que não se diziam, apesar de ter uma absoluta adoração pela minha mãe e só começar a entender-me com o meu pai já perto da adolescência substituindo-o até lá pelos meus tios, de quem em criança pequena sentia muito maior afinidade.


O certo é que como todos em maior ou menor grau comecei a aprender que nem tudo se diz, nem tudo é a preto e branco. Sobretudo a ponderar as razões para a hesitação. Formei carácter na dúvida e não dou significado inteiramente pejorativo à ambiguidade, como é muito usual. Tudo dependerá do grau de indecisão e em última instância do perigo desta nos paralisar por excesso de perspectiva. Tomar consciência de um maior número de dados em jogo numa questão pode conduzir à inacção ou à tal neutralidade, desaconselhável em muitos casos. O caminho do conhecimento não é fácil – fico aterrada com a pretensão expressa nesta afirmação, mas adiante, é exactamente o que quero dizer. Voltando aos exemplos da definição do quadrante político ou de um interesse romântico. Imagine-se quem sempre questiona cada preposição como sendo sua ou de outrem. 


A cada passo identificar-me com argumentos, tomadas de decisão, sentimentos dos dois lados. Serei eu que tenho uma abordagem conservadora na matéria x ou é outro, serei a progressista ou será ele? E não haja a ilusão de que saber definir cada conceito é tiro e queda para resolver a questão. Pelo contrário, quanto mais esclarecidos são os conceitos, mais difícil pode ser identificar-me inteiramente com eles. A vida é bastante mais difícil e interessante do que os lugares-comuns e engodos que dizem ser a ignorância a raiz de todos os males e que nos recomendam o conhecimento como o caminho inevitável para a luz, a tolerância e a bondade. Mais, a via para a verdade.


A cada passo duvidar do ângulo emocional. Serei eu o alvo do desejo ou quem a ele aspira? Qual o meu lugar na relação? Não se sujeite a questão ao simplismo da reciprocidade, a forma como tudo se resolveria nos contos de fadas. Jamais posso aceder inteiramente ao pensamento e sentimento do outro, a menos que confie cegamente, uma impossibilidade em termos de conhecimento. Ora isso aumenta ainda mais a inviabilidade de conhecer os meus. Pensada, a vida complica-se seriamente. O conhecimento não há-de ser caminho único, sequer o principal.