Pesquisar neste blogue

11/07/2022

Recapitulando


Identitários, cínicos e superação


por Isabel Paulos, em 22.03.21


 


A ideia não é nem rebuscada nem difícil e é, aliás, recorrente em escritos prévios: todos estes ressentimentos que desembocam nas bandeiras identitárias e o movimento tendencialmente associado à esquerda adolescente, que se impõe ao mundo através do discurso dominante nos meios de comunicação de massas, podem ser considerados ímpetos e apesar de tantas vezes ridículos é possível que tenham razão válida implícita. Mescla-se a luta de poder numa espécie da procura da virtude que obviamente esbarra no (oposto) cinismo ou indiferença: na falta de crença na existência da honestidade. É desta argamassa de dois radicais indesejáveis e da busca de um denominador comum que esteja além dela – e não de uma ambiguidade que não teria qualquer valor – que há-de resultar a superação.


É verdade que nos andam a tentar evangelizar ou doutrinar, impondo regras de virtude – à semelhança da religião - que apesar de terem base numa ou outra injustiça concreta são absolutamente arbitrárias ou estapafúrdias e de impossível aplicação geral e abstracta por corresponderem: a) a micro interesses individuais ou de tribo, b) a ressentimentos inconsistentes, c) a logros e mentiras. Mas não é menos verdade que no manto da dita normalidade em que vivemos, todos os papéis estão predefinidos e tantas vezes sem justiça. Além do que compactuamos com o cinismo – na acepção filosófica original: o abandono da civilização em prol da natureza. Mas por uma via diferente: pela sofisticada indiferença ou relativismo - terreno fértil à desonestidade. Se não actuarmos sobre a nossa miséria ou a do mundo, escudando-nos em etéreos eufemismos sobre a nossa própria desonestidade ou os vícios dos outros, desacreditamos num módico de justiça e tornamos a vida civilizada impossível.