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28/07/2022

Cigarros

As imagens das marcas de cigarro que fumei.


Comecei a fumar cedo. Demasiado cedo. Depois de umas passas aqui outras acolá, comprei o primeiro maço no dia que fiz 14 anos – um SG Ultra Lights. Dia de uma decisão difícil. Esse pacote ao menos durou quase um ano. Mas aos 15 já fumava um maço por dia e assim me mantive até aos 40,  quando dei por mim a dar cabo de cerca de 30 cigarros por dia. No liceu, entre o 10º e o 12º ano fumei SG Filtro e Gigante. Coisas levezinhas, como se vê. Uma estupidez. Ainda por cima filha de pais que davam o bom exemplo, não fumando senão muito raramente (e sem travar, coisa que nunca percebi como se consegue fazer). O certo é que três dos quatro filhos não seguiram o bom exemplo, preferindo aderir a hábitos perpectuados pela família alargada e amigos. Dizem que em criança pequena andava atrás das tias fumadoras, de lápis de cor e afia nos dedos, a fazer as vezes de cigarro e isqueiro tratando-as por tu. O máximo, devia achar na qualidade de macaca de imitação.


Nunca gostei de Marlboro apesar de ter fumado algumas vezes, quando fora do país. A primeira em 1990 no sul de Inglaterra, quando lá estive umas semanas sozinha num curso de Verão (um dos melhores presentes que recebi na vida). Nessa altura também fumei John Player Special, a marca mais barata do mercado – foi com esta referência que lá no aeroporto me entrevistaram num inquérito sobre hábitos tabágicos. A última vez em Luanda em 2005.


Na faculdade passei ao L&M e não sei se o Português Suave é desse tempo ou posterior – tenho falhas de memória. Salvo épocas de exames e orais, continuei na média de um maço por dia, muito expandida nessas alturas. Depois aderi ao Chesterfield Lights, que me acompanhou vários e os mais difíceis anos. Fiz três tentativas de deixar já a trabalhar. Uma em 1998 numa viagem aos Estados Unidos, conseguindo estar três semanas de abstinência, até acabar por comprar maldito Marlboro. E duas mais tarde, de cerca de 10 meses cada, uma delas também por imposição de estar fora do país (não os 10 meses), desta vez na Austrália. Ainda sou do tempo que se fumava nos locais de trabalho – lembro que já procurava as varandas e corredores, mas o facto é que os ambientes (e a roupa) tresandavam a tabaco.


Assim continuei até ao dia seguinte ao aniversário dos 42, quando fui operada para extrair a tiróide. Fumei o último cigarro a acompanhar o café que rematou o almoço e à noite fiz a cirurgia. Não tive qualquer dificuldade em não voltar a fumar. Não fiz esforço de espécie alguma, o que atribuo ao facto de estar apinhada de medicação. Foi o largar de vício mais fácil que se possa imaginar. Como nem tudo são flores engordei mais de 20 quilos, o que para quem já tinha ganhado outros tantos uns anos antes não convinha muito. Mas não há saúde sem senão. O certo é que volvidos sete anos lá consegui arranjar maneira – outra cirurgia – de perder parte substancial do peso ganho (ainda em processo de diminuição). A parte gratificante é ouvir a minha enteada dizer que já não chio a respirar. Para quem como eu viveu em criança os últimos anos do avô com problemas respiratórios graves e tem duas tias com maleitas semelhantes, conseguir fugir da sina é uma meta.


Quando parei de fumar disse comigo própria, como já aqui contei várias vezes, não estar a deixar mas a interromper o vício por 40 anos, para ter possibilidade de lá chegar. A meta são os 82. Pode parecer leviano, mas é uma forma naïf de incentivo para encarar a falta deste gosto. Quanto mais não seja porque tinha mesmo imenso prazer no tabaco. Há cigarros que sabem pela vida (o problema é que por vezes custam a própria vida). Haverá coisa melhor do que partilhar um cigarro?