Num mundo de tantos virtuosos(as) e sabios(as) capazes de tudo denunciar e ensinar continuas caminho a exibir as tuas pechas. Às vezes dará ideia estúpida que te orgulhas delas – não seria de todo descabido já que é forma de te reveres na humanidade -, mas não. De cada uma destas imperfeições resultaram atrasos e falhanços na vida, que preferias não ter sofrido.
Há quatro meses, quando afastada do trabalho cerca de 20 dias por doença, mudaram o horário na empresa das colegas que contigo dividem tarefas e sala (já passou o tempo de privilégio da pandemia em que tinhas um gabinete só para ti), passando a entrada para meia hora mais tarde. Ao regressar e tomar consciência disso, assumiste que aquele também era o teu horário, pelo que ao fim de tantos anos viste-te na circunstância nova de todos os dias chegares a horas ao local de trabalho (ou mesmo antes da hora). Se não foi premeditado, não poderia ser melhor pensado para obter o resultado certo.
Nos primeiros anos, nos muitos empregos que foste tendo, sempre chegaste atrasada entre 15 e 20 minutos (eras pontualíssima no atraso). É certo que nunca tiveste horas para sair e nesse caso não se tratava de minutos, mas de várias horas extra não remuneradas. Ainda assim nada justifica o atraso, nada compensa a falha da manhã. Assim continuaste vida fora apesar da estabilidade profissional. Só agora mudaste.
Na casa dos 20 anos, num dos primeiros empregos, no contencioso de um banco, foste várias vezes ameaçada com despedimento pelo director quando entravas às 9h15 ou 9h20, para refrear a fúria dez minutos mais tarde face às resmas de papel que era preciso dar-te para tratar. A história acabou mal por razões diferentes.
Só assente na casa dos 30 perdeste o hábito de te deitares a altas horas da madrugada, começando a dormir regularmente a horas normais. Ainda assim, com este cuidado, foi preciso atingir os 40 para acordares antes do despertador. O organismo de cada um é mistério difícil de decifrar (permeável a múltiplos factores endógenos e exógenos), pouco compatível com as condenações sumárias de quem está convencido que tudo é dominável a qualquer momento pela vontade e disciplina, como se todos fossem máquinas gémeas infalíveis e talhadas pela mesma mão.