Ao longo do dia tenho pensado na volatilidade da opinião e do gosto dominante. Tudo quanto é vendido como verdade ou produto de altíssima qualidade num momento poucos anos depois passa a causar tédio. O pior e o melhor caem no mesmo saco por razões que se prendem mais com excitações e querelas de facção ou corrente do que com um juízo cuidado e válido de mérito.
Todo o aviso sensato feito há 30, 20 ou 15 anos, ignorado ou mesmo espezinhado por quem debita vacuidades no espaço público, sempre cuidando de ser aceite pelos pares, é agora, que já vende e por isso rende muito sob ponto de vista pecuniário ou de notoriedade, apresentado como verdade irrefutável. Chegam tarde, como é costume. Estariam certos se volvêssemos duas décadas. Mas a descoberta da pólvora com décadas de atraso continua a ser o que vinga – não vale a pena resistir, quem o fizer estará sempre fora do tempo e sairá sempre derrotado pela opinião dominante, voto e realidade imposta pela moda.
Dei por mim a recordar frases redondas de adesão quase unânime, que vão sendo repetidas todos os dias na rádio, televisão, jornais, blogues e redes sociais. Sobretudo no domínio da actualidade, que é termo mais propício ao frenesim e julgamento fácil do que ao rigor. Palavras vazias de sentido decalcadas entre os clãs que vivem da propaganda vertida nos meios de comunicação social (e nos últimos anos nas redes sociais). Sob pretexto de informarem e ajudarem a educar a população vão a todas como cães de fila, sem tempo de digestão, para no fim se limitarem a regurgitar os habituais mantras de conversão das massas. Um sermão dominante acrítico, com pequenas nuances e retoques de modernização da linguagem, preso a insignificâncias, a inclinações pessoais de gosto, à frivolidade e ao gracejo fácil. Cego ao que é importante. Indiferente às verdadeiras desigualdades e injustiças.
As modas passam e as injustiças no país vão-se perpectuando. Só sobra, sempre igual a si própria, a eterna vontade de partir.
De tudo isto me lembrei ao ouvir o 125 Azul dos Trovante, música que desde sempre gostei muito.