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24/07/2022

A ler

Manuel Cargaleiro: "Trabalhei tanto… Deve haver poucos pintores que tenham trabalhado tanto. Há um, o Picasso", no Observador.


 



Sou muito otimista e acredito na boa-vontade dos outros.


[...]


Sempre fui muito tímido, mas não tenho vergonha.


[...]


Nesse caso: qual é a sua mensagem?
É difícil dizer. A minha mensagem talvez seja orientar as pessoas para viverem junto à natureza e serem simples. O simples não significa que não conheçam os poetas. Ainda há poucos dias me lembrei do Agostinho da Silva, o filósofo. Passei um tempo em Brasília e ele estava lá, de maneira que à noite passeávamos e falávamos sobre estes temas.


[...[


Que relação tem com a religião ou com a espiritualidade?
Sou católico. Jesus Cristo foi enviado por uma força a que, para facilitar a vida, chamamos Deus. Tive uma relação muito forte com a Vieira da Silva. Na vida, na arte, na conversa. Conhecemo-nos em Paris. Um dia pediu-me para ir almoçar lá a casa, depois fechou-se comigo no atelier. Estava numa crise de confiança. Eu disse: “O Arpad é um grande pintor, muito bom do ponto de vista técnico, e a Maria Helena é uma bruxa genial.”


Que quis dizer com isso?
Que ela era o que era malgré ela. Não foi ela que quis ser artista, aconteceu ser assim. Ela foi intermediária, fez o sacrifício revoltado e sofrido de fazer as obras que fez. Sou exatamente o contrário. Aquela admiração que ela tinha por mim, vinha daí, ela via o contrário na minha obra. Ela sofria. Digo isto porque me falou na religião. Quando se assinalaram 10 anos da morte dela, a embaixada em Paris organizou uma cerimónia, onde até esteve a Maria Barroso. O jovem padre fez um discurso a dizer que a Vieira da Silva não era católica. Fiquei pior que estragado e disse ao padre que durante seis meses tinha ido muitas vezes a casa da Vieira da Silva para lhe ler excertos dos Evangelhos. Ela queria encontrar frases para gravar na pedra do túmulo. Como é que não era católica? Daí aquelas perspetivas que nunca mais acabam. Eu ponho flores, ponho alegria, ela não. Ela procurava o depois, o que há depois. Eu dizia-lhe: “Maria Helena, depois, depois… Depois há Deus.” É aquela força que não somos capazes de explicar por mais voltas que demos.


[...]


É verdade que nos primeiros anos em Paris conheceu Picasso e Max Ernst?
Conheci toda a gente daquele tempo. Com o Max Ernst havia uma amizade, ele era um velhote, eu era um jovem. Ele queria que eu fosse com ele ver exposições, para não estar sozinho. Com o Picasso, foi diferente, nunca falei com ele. Vi-o várias vezes, estive ao lado dele no Café de Flore. Por decisão, nunca me aproximei. Um dia, o Armando Martins Janeira, embaixador de Portugal em Tóquio, chega a minha casa e pede-me para ir comprar três bifes para o jantar, a mulher dele também ia aparecer. Eu morava no número 19, o Picasso no número 7 da Rue des Grands Augustins. Um dia cheguei ao talho e encontrei o Picasso. “Estou diante de um génio.” Não tinha nada para lhe dizer. Diria o quê? Que gostava muito da pintura dele, que ele era um génio? Tudo seria pouco. Senti-me tão pequeno ao pé daquele monstro que nem quis dizer-lhe nada.


Imagine que as pessoas faziam o mesmo consigo: que nem lhe falavam por o admirarem tanto.
Sou a pessoa mais acessível.


[...]


Para terminar: pode dizer-nos qual é o problema da arte portuguesa?
Não quero dizer mal de ninguém, a arte portuguesa tem grandes artistas. Sabe, todos os países do mundo querem ter um ou dois pintores em Paris, todos. Os portugueses que foram para lá nos anos 20 vieram-se todos embora. Malgovernados, com falta de espírito de sacrifício… Os pintores portugueses são fabulosos do ponto de vista técnico, a formação é ótima, têm todas as qualidades para triunfarem em qualquer lado. Mas, quando decidem sair de cá, olham para o que se faz nos outros países e pensam fazer o que veem fazer. Fazem o que os outros já fazem. Sabe qual é o resultado? Passam a ser artistas de segunda, não levam uma coisa nova. Olhe, há um miúdo fabuloso que gosta de mim, até vamos agora fazer uma coisa juntos. É o Vhils. Aquela ideia de picar a parede é admirável, ele tem uma visão de longe fantástica. Há uma profundidade na obra dele que admiro imenso. Ele está a fazer o que ninguém faz.


Já têm estado juntos?
Algumas vezes. Ele é do Seixal, onde há uma escola com o meu nome, e quando era miúdo via os meus trabalhos, porque eu organizava exposições e dava muitas coisas lá para as escolas. À volta da cabeça dele andam imagens das minhas cerâmicas. Fico todo contente, o miúdo tem 35 ou 36 anos. Há uns dias fui ao atelier dele no Barreiro, um pavilhão fabuloso, enorme. Vi lá um painel em madeira, todo pintado de uma cor. Digo-lhe assim: “Isto não está muito bem”. E o Vhils: “Quer pintá-lo? Eu dou-lho.” Portanto, já tenho uma ideia do que fazer, vou acrescentar, e espero trazer o painel aqui para o museu. Ele quer que assinemos os dois. Parece-me bem.