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29/07/2022

Estabilidade

Conheço várias pessoas, sobretudo mulheres, para quem a entrada dos 30 foi uma marca muito positiva. Por razões de realização profissional ou pessoal. A conquista de estabilidade no campo da formação ou laboral e de constância na relação afectiva, máxime a vinda de filho ou filhos, fez desse período uma marca memorável. É certo que nos dias presentes esses objectivos de vida são cada vez mais postergados.


Como já por aqui aflorei casar e ter filhos, um desígnio apesar de tudo ainda muito comum na minha geração, não era um sonho meu de adolescência. Para mal dos meus pecados, Deus fez o favor de me dar na casa dos 20 e início dos 30 a vida que idealizei em miúda em traços muito mal amanhados - é o que dá não definir bem o que se quer, Deus apanha o esboço e despacha o pedido sem grande cuidado, à trouxe-mouxe. A bem da verdade admito que na próxima encarnação vou escolher ser mais "normalzinha". É que parecendo que não o mundo está montado para pessoas standard, não se compadecendo de esquisitices. Além de mais é muito confortável aparecer nas reuniões familiares e de amigos devidamente acompanhada, e de preferência com a mesma pessoa durante longos períodos. Dão-nos muito mais crédito. É tudo muito mais tranquilo e sereno. Muito conveniente. Quando nos apresentamos sós, teremos sempre alguma pecha, especialmente se formos mulheres: encalhadas, vadias ou fufas. Vá estes são os três rótulos mais comuns. Aos catalogadores não passa pela cabeça consultar a astrologia, senão logo dariam conta que há gente com tendência para o celibato ou para amancebar tarde. Gente manienta cujos astros se alinharam de modo a levarem a liberdade muito ao pé da letra, fazendo finca-pé em não abrir mão da sua quota de independência. Ou então e quanto mais não seja por puro mau-feitio. Má-língua por má-língua podiam usar as bruxarias em vez dos anátemas herdeiros da claustrofobia imposta por interpretações estreitas da tradição religiosa. Não andam tão longe assim e os astros apesar de tudo parecem ter mais abertura de espírito.


A chegada aos 30 pedida por muito conturbada não foi particularmente feliz. Até lá nem estabilidade profissional nem emocional. O meu primeiro contrato sem termo foi aos 33 anos e só juntei trapinhos aos 41, depois de quatro anos de namoro com o Nuno em segundo round, já que nos havíamos conhecido e namorado quando tinha 26/27 anos. Até então tudo o resto foi desarrumação de vida e navegação à vista.


Só depois dos 35 serenei e pela primeira vez na vida me senti compreendida e capaz de me dedicar por inteiro a outra pessoa, fazendo-a centro da atenção, preocupação e amor. A entrada nos 40 foi bela e feliz por essa razão. Vivida intensamente, sem a desordem da entrada nos 30, sem a inconsequência dos 20.


A aproximar-me dos 50 (falta menos de ano e meio) volto a focar-me mais em mim e na preparação da maturidade - esta só de gozo, dita por uma criançola. Introduzi uma série de pequenas alterações na vida para me sentir melhor. Com esperança, mas nunca a certeza, de seguir pelo caminho certo. Ainda há mais mudanças no encalço, como tanto gosto.


Depois de acabar de escrever este texto voltei à sensação de estar a descrever a vida de muitos, aliás, de muitas outras mulheres. Às tantas é só necessidade de me sentir acompanhada.