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31/07/2022

Diário

Dois dias diferentes, dois dias iguais.


Ontem, tarde e noite em reunião familiar com espaço, água para nadar, conversa plena de cumplicidade e picardia. Mãe, irmãos, cunhada, primo, sobrinhos, Nuno e eu (e cão). Alegria, riso. E, no momento em que duas borboletas nos sobrevoaram, vejo um dos meus irmãos abrir os braços, como quem abre as asas. Imóvel, como em criança fazíamos para que as borboletas pousassem nas pontas dos nossos dedos. O certo é que elas pousavam. Fim de noite de troca de mensagens com velhos amigos, depois da qual adormeci no sofá, onde acordei hoje perto das dez horas.


Amanheci com mais mensagens bem dispostas de amigos cheios de grandes ideias para jantares e viagens. E de troca de informação útil. À tarde a má notícia. Partimos para Braga para a despedida da tia N., que deu exemplo de vida ao encarar os seus últimos e difíceis anos com coragem, sempre afirmando: "amanhã é outro dia". Em momento algum se deixou perder para a autocomiseração, que destestava. Para ela já não será, mas para o meu tio e primos amanhã será outro dia duro, triste, difícil. Espero que a força do elo, a ideia de que somos uma rede sólida que está cá para as alegrias e para as tristezas atenue um pouco a dor. De uma coisa podem estar certos: a tia N. era adorada pela família. Vai-nos fazer muita falta, ainda que saibamos que vai para junto de pai e mãe.


A presença de espírito da tia N. era notável. Em criança num dia mau a minha mãe, terminada uma discussão, disse-me que tínhamos fazer as malas. Ora, bem mandada e um bocadinho calhau, fui para o quarto arrumar as minhas trouxas em sacos, já que íamos deixar Valinhas. Não fosse a chegada da tia e o seu pragmatismo a sossegar-me com toda a calma do mundo que não íamos a lado nenhum e aquilo era só uma má disposição passageira, esse dia teria sido bem mais difícil. Amanhã é outro dia, e foram muitos outros dias em Valinhas e Lagos com a exuberância, genica, criatividade e boa disposição da tia N., que me incutiu o gosto pelas mudanças de casa e jogo de cartas, nos quais não tolerava batota. Honestidade total à mesa de jogo como na vida.