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24/07/2022

Ingenuidade

Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.


Aprender.


Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.


Aprender.


Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar o ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar o ar de saber mais do que sabe. Não dar o ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.


Aprender.


Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.


Aprender.