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11/07/2022

Recapitulando


Quem pensa assim e age em conformidade - nomeadamente políticos - não tem vingado face à vozearia inconsequente que domina o espaço público.


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Notas avulsas


por Isabel Paulos, em 01.06.21


 


Ando há dias para fazer um postal sobre opinião pública, contraditório e Democracia. Espiolhando a memória recente vejo que tenho ideias soterradas debaixo doutras ideias e começa a ser trabalho de arqueologia trazê-las à luz. A questão era a das contradições e a dificuldade em encontrar verdade no que se defende. Coerência, no mínimo. É difícil.


Vou por partes para ver se me entendo e faço entender. Há dados que tenho por adquiridos: 1.) a enumeração de factos per si, ainda que verdadeiros, não confere qualquer garantia de condução à verdade quando esses mesmos factos são reunidos num argumento orientado à defesa de um flanco (tal como nas ciências impostoras sabemos que quando se conhece ou procura legitimar uma conclusão de antemão, as hipóteses e todo o processo são falsos); 2.) como decorrência, o contraditório, feito à fase da enumeração de factos de cada um dos flancos, também não.


E desta limitação – acrescida das circunstâncias abaixo referidas -, nasce o tal chinfrim seja de opinião seja de contestação próprio das democracias. Por favor, dêem-me o benefício da dúvida: não estou a recusar ou denegrir as virtudes da Democracia – a tal pior forma de Governo, tirando todas as outras -, mas tão só a ver o lado negativo.


Até há poucas décadas poucos determinavam a orientação das decisões do poder central. Nos regimes autoritários, por força das restrições das liberdades e das hierarquias impostas pelo poder. Nas democracias, por força dos desníveis sociais e económicos reais que as ditas, tal como os regimes autoritários, não colmatam apesar da História nos ensinar que tendem a trazer melhores condições económicas ao grosso das populações.   


Em grande parte do mundo, vivemos no tempo em que quase todos têm opinião – livre ou condicionada - e além de direito a exprimi-la, estão munidos de ferramentas tecnológicas que permitem a sua difusão em massa. Os meios formais ou institucionais a que poucos acediam por sorte na hora do nascimento, por frequência do ensino ou por sucesso económico deixaram de ser vias únicas para ter voto na matéria.


Ao mesmo tempo, a base da organização política internacional, o Estado, perdeu espaço para estruturas supranacionais de natureza comercial. Além do que, os órgãos de soberania e todas a instituições garante da Democracia dentro dos Estados começaram também a deteriorar-se quer por impreparação dos titulares dos cargos quer por constante pressão e apetites da opinião pública irracional.


O peso da tecnologia é avassalador e a capacidade de condicionar e moldar o pensamento das massas aterrador. As grandes tecnológicas na área da comunicação têm hoje pelo peso económico capacidade de influência efectiva muito superior à maioria dos Estados, e tentem a escapar ao poder de decisão e controlo das entidades garante da Democracia. A opinião pública, que é hoje o principal barómetro dos governos, pode estar nas mãos dos joguetes e tacticismos políticos e económicos entre as grandes tecnológicas e os Estados com maior capacidade tecnológica. Enquanto isso os extremistas organizam-se e amplificam a sua voz através destes mesmos meios.


 


A preguiça e a falta de tempo – mais a primeira do que segunda -, faz com que não tenha leituras suficientes sobre a degeneração da Democracia. Talvez não seja inteiramente mau. Não estarei tão condicionada pelo que já foi escrito sobre o assunto e a coisa sairá naïf.


 


Fala-se em definhamento da Democracia seja qual for a falange política a que se pertence como uma inevitabilidade. Nego-me a desacreditar – apesar da evidência para aí apontar. Seria muito cómodo desacreditar e cair no cinismo. Uma tentação. Mas há-que contrariar e arranjar maneira de conseguir fazer perceber que o mero contraditório, a alternância de posições incompatíveis levará ao crescimento da bola de neve da intolerância.


Há cedências que devem ser feitas e por mais que custe a uma certa esquerda que se toma por dona, senhora e tutora dos bons princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade – tudo isto ainda se vai buscar à Revolução Francesa -, a verdade é que a marxista luta de classes e a moderna reivindicação identitária não estão isentas de grave prejuízo para a Liberdade. São históricas as chacinas e o horror totalitário comunista, como foi o fascismo. Por cada vez que se legitimarem ditaduras comunistas – passadas e presentes -, estar-se-ão a legitimar as aberrações e carnificinas nazis. Por cada bandeira identitária hasteada por moda e no intuito de derrubar a liberdade alheia e não por defesa do razoável, um extremista de direita nascerá e se sentirá legitimado. Por cada vez que se defenda a pena de morte, o ódio racial, a homofobia ou a misoginia, um extremista das bandeirinhas da moda se legitimará. O contraditório alimenta-se a si próprio criando uma espiral de ódios, incompreensões e ressentimentos.


O contraditório por si não resolve. É preciso descer ao terreno das ideias e introduzir critérios de validade:  razoabilidade e oportunidade. É preciso introduzir filtros de justiça nas ideias defendidas que ultrapassem os preconceitos de ambas as partes.


Às pessoas sensatas e moderadas em vez de as refutar sumariamente compete reconhecer, entre o manancial de reivindicações dos extremos, possíveis razões (fundamentos) válidas e trazê-las para o debate, assimilando-as de forma inteligente: depurando-as através daqueles critérios de razoabilidade e oportunidade daquilo que têm de maligno. No caso de Portugal é patente esse reconhecimento das reivindicações legítimas da esquerda radical e populista, mas não ainda o da direita radical e populista, que por mais ignorante seja, representa com toda a certeza um capital de contestação legítimo.


Não se trata de normalizar e legitimar os extremismos – inimigos da Democracia apesar de não se assumirem como tal por medo das populações que querem subjugar -, mas sim de esvaziá-los do que têm de perverso. Não me parece tão difícil Portugal desembaraçar-se por esta via dos perigos dos extremistas lusos.


Já me preocupa mais a actual 'elite' política portuguesa. Tenho reservas que tenha capacidade e jogo de cintura para os embates económicos internacionais e aproveitamentos ideológicos futuros. É que saber servir à mesa pode dar muito jeito, mas não é o suficiente.