A inconstância dos dias numa constância de percurso. A cada momento do correr dos dias a sensação de desapego de ideias e vontades até chegar ao ponto de consciência, de olhar para trás e ver a construção da teia, elo a elo, num sentido último que toca ao de leve o pensamento e o sentimento nos momentos felizes, de consumação. Ontem disseram-te por imagens que envolviam maratonas e jogos olímpicos que nunca paravas para gozar as vitórias passando pelas metas sem lhes dar importância, sempre a magicar o próximo passo numa atenção e preocupação permanente aos pormenores e à forma de partir para o próximo empreendimento. A verdade é que páras às vezes, mas não te deténs muito em apreciações sobre êxitos. Não quer dizer que não os sintas e sejas agradecida, quer antes significar que para ti é mais importante o caminho e dele não consegues despegar – como se abalasses a pé sem parar, sempre a cismar na vida como tanto gostas. A cismar no que foi e no que será. Ah, as tretas da auto-ajuda e os apelos a viver o presente, como se o tempo não fosse uma abstracção física e os três planos não se confundissem, não sendo o presente diferente do que foi e do que será. O cérebro e o coração trazem em si as alegrias e as tristezas, mas gostas de ir andando sem te enredares muito nem numas nem noutras. São elas que dão ânimo às pernas, o combustível. Darás ideia de viver de afogadilho, mas cada um é como é, e a insatisfação é traço teu.
Será que não tomas consciência do que vives?, será que vives pela rama? Será que não sentes o que seria suposto sentir? Não compreendes o que seria de compreender? Haverá quem faça render mais a vida – quem lhe esprema a seiva para descrevê-la minuciosamente como se de coisa diferente de si se tratasse. Para relatá-la e explicá-la. Como? Se a seiva, se o sangue é o próprio vigor da vida? Outros que a descrevam, detalhem e argumentem. Não tens paciência para isso. Por ti, és tu. Ela e tu confundem-se, não tens tempo para estudá-la como se de fora de ti estivesse. Como se não fosses tu própria a estar fora de ti. Como se não fosses.