Ontem à tarde teletrabalhei um pouquito. Nada demais e que não permitisse trocar mensagens WhatApp com uma amiga acerca de esoterismos. É bom sentir-me acompanhada. Ao fim da tarde fui visitar a minha tia e madrinha e a conversa decorreu amena. Fico sempre com peso de consciência de não a visitar já que vive sozinha e sei aprecia a companhia. Há que aproveitar a disponibilidade em tempo de férias. Levei duas romãs em honra da Eca que no Natal quando era criança e adolescente me entregava uma romã embrulhada em papel vegetal para que a desse à minha tia. Quarenta anos depois a tradição mantém-se fora da época natalícia. De manhã, já contei ontem, tinha ido comprar sementes de erva, e antes acompanhei o Nuno às análises e exames médicos – as férias também servem para o efeito.
No curto percurso de ida e vinda pelo miolo da cidade foi impossível não notar a movida de fim de tarde da baixa. Com os bares, esplanadas e rua pejados de turistas e portuenses a aproveitarem a vida. E curiosa conversa com o condutor da Uber, homem de 58 anos, filho de felgueirenses emigrados no Brasil, onde nasceu e viveu até que aos 22 anos veio viver para o Porto. Filho e sobrinho dos donos de um restaurante conhecido da cidade onde me lembro de ir em novita e com muitas lembranças coincidentes da nossa terra. Mais uma vez o Porto mostra-se uma aldeia.
Hoje almoçámos junto ao Parque da Cidade que percorremos em franco sossego. Muito pouco povoado, o que não deixa de ser um luxo, mas pleno de passarada muito à vontade de tão despreocupada pela ausência humana. Além das pombas e dos pardais da praxe, patos e gansos, muitas pegas – são cada vez mais e não ajudam à fotografia em comunidade já que dispersam rápido –, andorinhas em vôo veloz e acrobático a rasarem-nos de tal modo parecem estar a exibir-se. À chegada ao Castelo do Queijo o mar e a surpresa de nos depararmos com o nadador salvador completamente só no areal a tomar conta apenas de si próprio e da bandeira verde. Havia chovido pouco umas horas antes. Um mar azul manso e profundo pronto a ser amado pelo olhar e narinas. Uma tentação para as selfies: tentámos uma fotografia sentados nas rochas. Passou uma rapariga nova inglesa e, vendo um casal de meia-idade naqueles preparos ridículos de esticanço de braços, ofereceu-se para nos tirar o retrato. Ficámos com mais um registo ali na zona para o arquivo de casal.
De tarde dormi até ser acordada por uma unhada do Ritz que se estava a espreguiçar junto a mim debaixo da colcha. Tem andado felicíssimo em correrias malucas, a enfiar-se debaixo do tapete e aos pulos às ombreiras das portas. Nesta semana em vez de uma pessoa a tempo inteiro para lhe dar atenção, teve duas. É um gato bastante mimado.
Amanhã se estivermos para aí virados, iremos à Feira do Livro. Não estou com grande vontade de aturar as enchentes das modas “faz de conta que leio muito” e dos clichés “ler abre-nos os horizontes e faz-nos mais tolerantes”, mas talvez faça sentido procurar o pack O Bairro de Gonçalo M. Tavares. Se não for, não é importante. Com certeza encontro mais cedo ou mais tarde em segunda mão online. Não tenho pressa. Quanto a leituras ainda há muito livro por ler em casa. Há dois dias tirei para o activo Um Homem: Klaus Klum, do autor acima referido, e as Memórias e Adriano, de Marguerite Yourcenar, que me foi dado pelo meu tio e padrinho no Natal de 2003 e ainda não li. Vou muito a tempo. Dizem-me que é uma maravilha; não duvido. São os dois livros previstos para o mês de Setembro. A ver vamos se cumpro e se continuo a saga Duracell em voz alta para o Nuno. Apesar da lentidão, estou a gostar imenso. Nesta altura do ano faço sempre planos – Setembro é mês de recomeços. Razão pela qual já engendrei vontade de em 2025 voltar a tentar ler a História do Mundo de Andrew Marr – será a base contínua onde assentarão outras leituras que venham a apetecer a cada momento e recomeçarei a lê-la ao Nuno quando terminar o Montefiore; vai prolongar-se pelo próximo ano. Pronto, cheia de boas-intenções. Veremos as que se concretizam.
Na segunda-feira recomeço a trabalhar depois de ter conseguido, especialmente nesta última semana, desacelerar do ritmo estonteante em que sobrevivia os últimos tempos. Por mim vivia assim tranquila um bom par de anos antes de voltar à guerra da agitação. Mas a lufa-lufa logo voltará.
![]()
![]()