Dei por mim a pensar na crueza. Mais nova ao ouvir comentários pragmáticos sobre um qualquer autor ou livro, considerava-os rasteiros. Uma espécie de ofensa à sensibilidade. Radicava esses comentários na falta dela e no carácter básico da inteligência de quem os pronunciava. Até a (hesitei em escrever maturidade, parece-me topete) idade me deixar adivinhar na intenção de quem escreve propósitos que vão muito para além da entrega à arte. Hoje compreendo melhor quem desconfia dos epítetos de “grande obra, “obra maior”, "um dos grandes autores” e desconstrói o que lê reduzindo-o ao trivial.
De que estou a falar? Por hipótese da referência deslocada a meio de um romance a uma cidade europeia conhecida pela sua histórica ligação à arte – porque razão não nomeio a cidade se a conheço?, para manter este post no essencial, não o desviando para a afectação por menoridade, por vaidade. De sempre muito da escrita faz-se com recurso a este expediente. E agora penso se haverá corrente capaz de desfazer este apelo inelutável à mostra de erudição para engrandecer um post ou um romance. Depurar a escrita dela parecerá sempre aos distraídos empobrecer a prosa e a literatura, ou melhor, nem reconhecer à primeira a qualidade da segunda. Quem diz referência a uma cidade, diz referência a um poeta romântico, realista ou simbolista, a uma corrente literária ou arquitectónica, uma tira de BD fora dos modelos convencionais, diz a alusão a uma batalha do século XX ou à mitologia grega. Até que ponto a mostra de erudição é profícua? Não será antes uma montra de vaidade fácil, cada dia mais fácil. Ao contrário do que afirma a elite cultural que se tem afirmado pela sua pequenez e oportunismo, é cada vez mais cómodo e simplista criar um boneco, uma personagem, um pseudónimo ou mesmo uma identidade assumida de sábio ou iluminado e constuir uma carreira de sucesso no meio intelectual ou cultural. Os recursos e o acesso massificado ao mundo da sabedoria herdada assim o determinam.
E não vou alongar mais para não maçar. Acrescento apenas que como é habitual não cumpri o plano de leituras para férias. Ponho sempre a fasquia demasiado alta, ao contrário da técnica muito disseminada nas últimas décadas de tomar os objectivos mínimos por máximos e ficar quase sempre contente com o resultado floreado, exultando de orgulho pelas conquistas assim obtidas ou então forjar trabalho intenso ou estudo sofisticado nunca feito com seriedade – não é uma alusão a leituras de outros mas ao sistema de ensino português. Dos quatro livros destinados para estas duas semanas, dois foram sendo lidos e serão continuados e duas novelas foram começadas e concluídas. Com a particularidade que acontece nos últimos doze anos: a de ler alguns dos livros que me passam pelas mãos em voz alta ao Nuno. A dois é uma leitura diferente: perde-se em privacidade individual, ganha-se em intimidade a dois. O que vemos nunca é exactamente o que vê o outro, é como ler o livro duas vezes de uma vez só.
No último ano do liceu, nas minhas eternas boas intenções não concretizadas, tive a ideia de ir para a Biblioteca Municipal do Porto ler para cegos. Como quase sempre acontecia não concretizei a intenção à época e como quase sempre mais tarde a vida mostrou-se patente por portas travessas num fio condutor que não sei onde e quando começa nem acaba mas dá sentido ao caminho. Imagine-se eu a ler para gravar naquela idade (mais tarde fi-lo muitas vezes com apontamentos da faculdade que cheguei a emprestar) lendo tão mal e sendo tão inexpressiva. Seria um descalabro. Hoje apesar da inexpressividade continuar – nunca seria capaz de ser actriz – já vou lendo melhorzinho. Lá para os oitenta devo estar no ponto.
Adenda. Reparei na profusão de artigos indefinidos neste postal. Devia, mas desta vez não vou corrigir.